Ultimamente adquiri o hobby de investigar o caroço das palavras e tem uma que ando pensando muito desde aquela nossa desastrosa tentativa de civilidade.
“Ex”. Ex é que nem filho, vai pra vida toda, é um desgarrar-se sem largar, é uma contradição dentro dela mesma. Ora, é só um prefixo usado para cessamento de etapas anteriores. Agora digo, desde quando ex é etapa encerrada? Você não é um canal que, não me agradando mais a programação, eu troco, desligo, sei lá, me distraio no meio da sala enquanto teu silêncio fica ali, pairando sobre mim.
Ex é pra sempre. É um mancar que não incomoda, já está ali, agindo simultaneamente com nosso sistema locomotor.
Ex é uma delícia. Você é e olha que te odeio! Mas sinto até um tesão nojento quando cruzo contigo, vontade de gritar, jogar sal na tua ferida. Um “ex”tase. Me desprendo do meu raciocínio, você é uma ponte que liga um desejo antigo a uma realidade impossível. Você, assim como qualquer ex, é uma nuvem em dia de sol, mas que no fundo, é bom, porque dá sombra. Descansa a pele, traz um frescor sorrateiro, um frio de morrer mas que sabemos que não dará nem gripe.
Duvido que não seja assim com qualquer um. Comportamento de ex é padrão, é rasgo, é uma extração bem-vinda de uma interessecção, sempre carregamos algo de ex conosco, nem que seja um passado. E passados são mais valiosos que presente, é o que nos torna, é a comparação, a bússola que aponta nossos desvarios e você magnetizou minha agulha, e ela sempre apontará pro teu norte.
E você? Garanto que gasta toda meia hora seguinte a esses esbarros pensando em mim. Você perde dez segundos reparando no meu cabelo e nos meus peitos, deixando todo o restante a pensar se esse nojo doentio é simultaneo. Eu sinto teu cheiro, acho que meu cheiro é igual ao seu, porque me inebrio nele, é um afrodisíaco de curta duração, o tempo suficiente de te ver virar a esquina e saber que não há passado que fará passar essa sensação indesejada mas sempre bem vinda de te trazer a minha vida.
quinta-feira, 10 de março de 2011
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Hoje
Oi mãe, desculpa o sumiço mas vindo de mim esse silêncio já era até o esperado. Agradeço DE NOVO pelo megapresente, viajar por conta pela Itália, nossa, sem palavras. Grazzie Mille, Mama !
Sabe, sei que você sempre questionou essa minha escolha pela antropologia, falou das dificuldades que terei em bancar o padrão de vida com o qual estou acostumada e relutei muito em acreditar que dinheiro significava tanto para você. Eu não lhe contei, mas esse é o primeiro momento em que estou usando seu dinheiro nesta viagem, gastando alguns euros nesta lan house te mandando esse e-mail. Não se preocupe, estou bem ! Guardei um pouco do estágio, queria viver as minhas custas, pelo menos o máximo possível e experimentar a sensação de independencia que buscava com essa viagem, e nós sabemos que não dá pra conseguir isso com o dinheiro dos outros, mesmo daqueles que nos amam.
Mas mãe, sabe, sei que sou a desgarrada e você tem mil motivos pra preferir a Ju que eu – ela demonstra mais afeto que eu, não sou boa em me doar – e aqui na Itália experimentei algo que sequer tinha a noção do significado. Fui “adotada” por um grupo de meninas que trabalham comigo numa loja de sapatos – calma, explico em casa e não, não é um campo de exploração isso aqui – e acabei de voltar de um dos inúmeros almoços que tive o prazer de compartilhar.
Mãe, aqui não é necessário natal nem fim de ano para uma celebração entre parentes. Aqui isso é diário. Há uma cumplicidade na relação dos italianos que nem de longe se compara ao que vivemos.
Essas meninas moram em casas um pouco maiores que meu quarto e essa falta de privacidade, - que aqui não se faz necessária – é o mecanismo de fortalecimento dos laços de todos os integrantes.
Quando penso na nossa casa, vejo que ela ficou ainda maior comparada a dessas meninas, porém, é um espaço grande que serve pra que?
Nós fizemos da nossa condição de classe média-alta um mini-mundo onde casa indivíduo habita um universo particular: eu trancada no meu quarto, com meus amigos, meu banheiro, meu guarda-roupas, meu mundinho girando em torno de mim e você e a mana nos seus respectivos universos, cada uma atarefada demais para exercer essa atividade diária que é importar-se de fato uns com os outros.
Sabe, quando lembro do meu quarto, impossivel não perceber o quão sozinha eu era. Eu tive o luxo de experimentar um tipo de solidão que não se rotula, uma solidão mais sofisticada, uma solidão não percebida que é aquela da qual nós pensamos ser uma benção: a solidão causada pelo excesso de privacidade. Pensei em tantas coisas que não foram compartilhadas e portanto de nada valeram. Tantas conquistas, pequenos vacilos que poderiam ter causado riso a você, sabe, não possuo um dia regado a surpresas, mas existem situaçoes que não haveria melhor platéia que você e a Ju. Estou estupidamente surpresa como nunca reparei o real valor que voces duas tem na minha vida. Voces são eu, eu sou voces, todas, simbióticas e nunca nos demos conta disso.
Vou precisar voltar, está acabando meu intervalo e tem uma cliente que fará uma grande compra, com o dinheiro ganho pretendo comprar teu presente. O da Ju foi a primeira providência que diz ao chegar aqui, mas o presente que quero te dar é essa alegria em descobrir que ainda dá tempo de praticarmos essa palavra que até então mantem-se virgem em nós: compartilhar.
Com muita, muita saudade de vocês
Ana
Sabe, sei que você sempre questionou essa minha escolha pela antropologia, falou das dificuldades que terei em bancar o padrão de vida com o qual estou acostumada e relutei muito em acreditar que dinheiro significava tanto para você. Eu não lhe contei, mas esse é o primeiro momento em que estou usando seu dinheiro nesta viagem, gastando alguns euros nesta lan house te mandando esse e-mail. Não se preocupe, estou bem ! Guardei um pouco do estágio, queria viver as minhas custas, pelo menos o máximo possível e experimentar a sensação de independencia que buscava com essa viagem, e nós sabemos que não dá pra conseguir isso com o dinheiro dos outros, mesmo daqueles que nos amam.
Mas mãe, sabe, sei que sou a desgarrada e você tem mil motivos pra preferir a Ju que eu – ela demonstra mais afeto que eu, não sou boa em me doar – e aqui na Itália experimentei algo que sequer tinha a noção do significado. Fui “adotada” por um grupo de meninas que trabalham comigo numa loja de sapatos – calma, explico em casa e não, não é um campo de exploração isso aqui – e acabei de voltar de um dos inúmeros almoços que tive o prazer de compartilhar.
Mãe, aqui não é necessário natal nem fim de ano para uma celebração entre parentes. Aqui isso é diário. Há uma cumplicidade na relação dos italianos que nem de longe se compara ao que vivemos.
Essas meninas moram em casas um pouco maiores que meu quarto e essa falta de privacidade, - que aqui não se faz necessária – é o mecanismo de fortalecimento dos laços de todos os integrantes.
Quando penso na nossa casa, vejo que ela ficou ainda maior comparada a dessas meninas, porém, é um espaço grande que serve pra que?
Nós fizemos da nossa condição de classe média-alta um mini-mundo onde casa indivíduo habita um universo particular: eu trancada no meu quarto, com meus amigos, meu banheiro, meu guarda-roupas, meu mundinho girando em torno de mim e você e a mana nos seus respectivos universos, cada uma atarefada demais para exercer essa atividade diária que é importar-se de fato uns com os outros.
Sabe, quando lembro do meu quarto, impossivel não perceber o quão sozinha eu era. Eu tive o luxo de experimentar um tipo de solidão que não se rotula, uma solidão mais sofisticada, uma solidão não percebida que é aquela da qual nós pensamos ser uma benção: a solidão causada pelo excesso de privacidade. Pensei em tantas coisas que não foram compartilhadas e portanto de nada valeram. Tantas conquistas, pequenos vacilos que poderiam ter causado riso a você, sabe, não possuo um dia regado a surpresas, mas existem situaçoes que não haveria melhor platéia que você e a Ju. Estou estupidamente surpresa como nunca reparei o real valor que voces duas tem na minha vida. Voces são eu, eu sou voces, todas, simbióticas e nunca nos demos conta disso.
Vou precisar voltar, está acabando meu intervalo e tem uma cliente que fará uma grande compra, com o dinheiro ganho pretendo comprar teu presente. O da Ju foi a primeira providência que diz ao chegar aqui, mas o presente que quero te dar é essa alegria em descobrir que ainda dá tempo de praticarmos essa palavra que até então mantem-se virgem em nós: compartilhar.
Com muita, muita saudade de vocês
Ana
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Habeas Corpus
Meu amor, só nós dois sabemos o real valor dessa expressão, amar-se, assim, infinito, um mar. De onde me encontro comprometo minha sanidade com esta carta, afinal, fizemos de nossa intimidade um espetáculo, deixando a terceiros um julgamento que não lhes diz respeito. Cada casal convive com suas regras, e algumas cabe somente a nós o entendimento.
Sei que, como aquela que sofreu a dor dos teus golpes, me confere a atmosfera de vítima e desse papel abdico pois eu sempre soube que a razão do teu comportamento partia de mim, e eu, se me coubesse não aceitar as circunstâncias, deveria ter me afastado, trocado de endereço, ter feito o que cabe aquela que sofre calada e não tem o amparo de uma família que a ame ou amigos que a acolham.
Eu não, eu te instiguei a isso, te doutrinei mentalmente, fiz de você minha cobaia afim de verificar a limitação entre o gostar, o amar e a obsessão. Eu transformei o teu amor em manchetes de quinta categoria, eu te humilhei, ridicularizando sua inteligência e te guiando pra essa barbárie e não há outra versão para essa história, você apenas reagiu igual uma pequena batida no joelho que nos faz levantar a perna. Se existe culpa, assumo, não há nenhuma porcentagem que te compete.
Mesmo que haja algum impedimento legal para o nosso convívio, afinal, não sei que rumo tomou essa nossa última briga, te digo que aqui deste lado existe uma mulher apaixonada, que vê no único gesto de loucura seu, uma fonte inesgotável de ternura e que te ama na mesma proporção que você: um amor arbitrário, cego, não-convencional, louco e recíproco.
Peço que assim que ler esta carta a entregue ao seu advogado, ele está a par de toda situação e saiba que farei o que for ao meu alcance para amenizar os impactos desse nosso desvarios embora por razões médicas estou impedida de ir até o julgamento, portanto, saiba que de daqui deste hospital refaço meus votos contigo e desejo, com toda a sinceridade possível, que você consiga me perdoar e saiba analisar que fui apenas uma idiota que precisava de uma prova do quanto o seu amor por mim era forte. Agora eu já sei o quanto é.
Morrendo de saudades
Cíntia
Sei que, como aquela que sofreu a dor dos teus golpes, me confere a atmosfera de vítima e desse papel abdico pois eu sempre soube que a razão do teu comportamento partia de mim, e eu, se me coubesse não aceitar as circunstâncias, deveria ter me afastado, trocado de endereço, ter feito o que cabe aquela que sofre calada e não tem o amparo de uma família que a ame ou amigos que a acolham.
Eu não, eu te instiguei a isso, te doutrinei mentalmente, fiz de você minha cobaia afim de verificar a limitação entre o gostar, o amar e a obsessão. Eu transformei o teu amor em manchetes de quinta categoria, eu te humilhei, ridicularizando sua inteligência e te guiando pra essa barbárie e não há outra versão para essa história, você apenas reagiu igual uma pequena batida no joelho que nos faz levantar a perna. Se existe culpa, assumo, não há nenhuma porcentagem que te compete.
Mesmo que haja algum impedimento legal para o nosso convívio, afinal, não sei que rumo tomou essa nossa última briga, te digo que aqui deste lado existe uma mulher apaixonada, que vê no único gesto de loucura seu, uma fonte inesgotável de ternura e que te ama na mesma proporção que você: um amor arbitrário, cego, não-convencional, louco e recíproco.
Peço que assim que ler esta carta a entregue ao seu advogado, ele está a par de toda situação e saiba que farei o que for ao meu alcance para amenizar os impactos desse nosso desvarios embora por razões médicas estou impedida de ir até o julgamento, portanto, saiba que de daqui deste hospital refaço meus votos contigo e desejo, com toda a sinceridade possível, que você consiga me perdoar e saiba analisar que fui apenas uma idiota que precisava de uma prova do quanto o seu amor por mim era forte. Agora eu já sei o quanto é.
Morrendo de saudades
Cíntia
domingo, 30 de janeiro de 2011
My dear
E então nos divorciamos. Pensei que choraríamos, mas não. Imaginei que nos arrependeríamos e voltaríamos, ambos mais crédulos e apegados ao "felizes pra sempre" embora a a situação esteja mais condizente com o "até que a morte os separe".
Não foi a morte que nos separou. Quem dera, pois nada mais lindo que uma viúva. Esse status combina comigo, não concorda? Viuvez dá a portadora do título uma atmosfera romântica que aos olhos dos outros transmite amor. Porque nós sabemos - ou fomos programados a acreditar - que somente a morte separa duas pessoas que se amam. E a viuvez é um atestado reconhecido de que enfim, a morte cumpriu-se ali como o separador definitivo, como se antes dela houvesse um mar de rosas no qual o casal se banhou.
My dear, ninguém morreu, mas segue-se esse clima de velório. Eu era uma antes de te conhecer, e acreditei que o divórcio me devolveria essa faceta de minha personalidade, te culpei por essa minha condição de mulher casada sem ambições. Joguei nos filhos, no tempo livre que nunca quis e nunca lutei para ter, entreguei-me e transformei num fardo uma vida compartilhada contigo e agora, segurando nossa certidão de casamento anulada, pergunto, ou melhor, imploro pra saber como faço pra anular essa que não me serve mais.
Eu não me amo. Não mais. Passei a olhar minhas fotos do ginasial, da faculdade, estou saudosa de mim, olha pra essa foto que te envio, não estou radiante? Sim, estou. Nem passava pela minha cabeça que te encontraria, que casaria, teria filhos. Não com voce, que do pouco que pude antever do seu caráter já mostrou-se como alguem que não me agradaria, caso a paixão não anulasse minha capacidade de ponderação.
Agora, sem paixão, oca, pondero: saberei ser infeliz sozinha? Esta casa está vazia e mesmo assim, quando passo pela porta, sinto que preciso empurrar com força para poder passar por ela.
Lembranças demais, esse apartamento está soterrado de lembranças, 15 anos dá para encher uma cobertura de imagens que juntas, formam o mosaico no qual reflete nossa vida juntos. O problema é que só consigo juntar os pedaços que menos gosto e o que reflete é a frustração de não saber o que de fato me faz feliz.
O divórcio não aliviou como pensei que iria. Ele é só um papel, não é uma cancela que vai abrir caminho para minha maturidade. Esse documento é na verdade a prova real que necessitei pra constatar que não sou feliz. A parte reveladora é que sem voce para culpar minha infelicidade, a quem culparei?
My dear, voce nem sequer entrou na questão financeira do nosso prejuízo e isso me feriu de morte, afinal, ficou claro que voce não economizaria em nada para se ver livre de mim. Ou então voce confiou nos meus principios e soube que, apesar da mágoa, eu não me apropriaria do que não fosse meu mas te digo que não posso continuar aqui, tudo que voce tocou me machuca. Portanto, fique com o apartamento, a mobília, não levarei um sapato sequer, tenho vontade de sair nua deste apartamento e estreiar, a milhas de distância daqui, essa mulher que ainda não tem nome, sem passado, sem lembranças.
Sem voce.
Não foi a morte que nos separou. Quem dera, pois nada mais lindo que uma viúva. Esse status combina comigo, não concorda? Viuvez dá a portadora do título uma atmosfera romântica que aos olhos dos outros transmite amor. Porque nós sabemos - ou fomos programados a acreditar - que somente a morte separa duas pessoas que se amam. E a viuvez é um atestado reconhecido de que enfim, a morte cumpriu-se ali como o separador definitivo, como se antes dela houvesse um mar de rosas no qual o casal se banhou.
My dear, ninguém morreu, mas segue-se esse clima de velório. Eu era uma antes de te conhecer, e acreditei que o divórcio me devolveria essa faceta de minha personalidade, te culpei por essa minha condição de mulher casada sem ambições. Joguei nos filhos, no tempo livre que nunca quis e nunca lutei para ter, entreguei-me e transformei num fardo uma vida compartilhada contigo e agora, segurando nossa certidão de casamento anulada, pergunto, ou melhor, imploro pra saber como faço pra anular essa que não me serve mais.
Eu não me amo. Não mais. Passei a olhar minhas fotos do ginasial, da faculdade, estou saudosa de mim, olha pra essa foto que te envio, não estou radiante? Sim, estou. Nem passava pela minha cabeça que te encontraria, que casaria, teria filhos. Não com voce, que do pouco que pude antever do seu caráter já mostrou-se como alguem que não me agradaria, caso a paixão não anulasse minha capacidade de ponderação.
Agora, sem paixão, oca, pondero: saberei ser infeliz sozinha? Esta casa está vazia e mesmo assim, quando passo pela porta, sinto que preciso empurrar com força para poder passar por ela.
Lembranças demais, esse apartamento está soterrado de lembranças, 15 anos dá para encher uma cobertura de imagens que juntas, formam o mosaico no qual reflete nossa vida juntos. O problema é que só consigo juntar os pedaços que menos gosto e o que reflete é a frustração de não saber o que de fato me faz feliz.
O divórcio não aliviou como pensei que iria. Ele é só um papel, não é uma cancela que vai abrir caminho para minha maturidade. Esse documento é na verdade a prova real que necessitei pra constatar que não sou feliz. A parte reveladora é que sem voce para culpar minha infelicidade, a quem culparei?
My dear, voce nem sequer entrou na questão financeira do nosso prejuízo e isso me feriu de morte, afinal, ficou claro que voce não economizaria em nada para se ver livre de mim. Ou então voce confiou nos meus principios e soube que, apesar da mágoa, eu não me apropriaria do que não fosse meu mas te digo que não posso continuar aqui, tudo que voce tocou me machuca. Portanto, fique com o apartamento, a mobília, não levarei um sapato sequer, tenho vontade de sair nua deste apartamento e estreiar, a milhas de distância daqui, essa mulher que ainda não tem nome, sem passado, sem lembranças.
Sem voce.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Mandei o amor tomar no cu
Já perceberam que todo mundo trata o amor como se ele fosse de uma delicadeza absurda? Não há um poeta, filósofo, vendedor de livro de auto-ajuda que não mencione que o amor é um sentimento frágil que necessita do amparo de uma gama de sentimentos para sobreviver. Quer saber? Temos mais é que mandar o amor tomar no cu dele.
Temos que parar com a palhaçada de afirmar que o amor é uma plantinha que tem que ser regada diariamente. O amor não é porra nenhuma de plantinha. O amor é uma árvore sequóia, é uma muralha, o amor não é essa coisinha mole e sem sistema imunológico que julgamos que ele é.
Temos que enfiar essa idéia na cabeça para não termos medo de enxotá-lo quando ele não estiver agradando. O mundo está cheio de pessoas que vão protelando essa despedida por acreditarem piamente que o amor é um cristal de vidro e que devemos preservá-lo. Na boa, o amor não é frouxo, não é vidro, não é uma combinação rara entre duas pessoas.
O amor é uma jamanta que te atropela a 200 km por hora. E se você sobreviver ao atropelamento, ele também sobreviverá a um belo chute nos fundilhos. Sim, fundilhos, porque o amor é varão, “O” amor, assim, com artigo masculino, coisa de macho, com culhões. Então, mande o amor pastar quando for necessário. Ele não vai magoar, não vai guardar rancor, ele vai é ir atrás de outro corpo que valha a pena porque é assim que o amor e os homens agem.
O amor não dramatiza nada, nós é que dramatizamos por ele. Tanto que pra cada descornado que surge há dois casais novos se formando. É o amor que não perdoa e manda ver em quem passar, o amor é oportuno, vai só esperar alguém baixar a guarda e CRÉU ! E nós, que ficamos em casa chorando as pitangas, achamos que ele que é o fraco da história.
Temos que parar com a palhaçada de afirmar que o amor é uma plantinha que tem que ser regada diariamente. O amor não é porra nenhuma de plantinha. O amor é uma árvore sequóia, é uma muralha, o amor não é essa coisinha mole e sem sistema imunológico que julgamos que ele é.
Temos que enfiar essa idéia na cabeça para não termos medo de enxotá-lo quando ele não estiver agradando. O mundo está cheio de pessoas que vão protelando essa despedida por acreditarem piamente que o amor é um cristal de vidro e que devemos preservá-lo. Na boa, o amor não é frouxo, não é vidro, não é uma combinação rara entre duas pessoas.
O amor é uma jamanta que te atropela a 200 km por hora. E se você sobreviver ao atropelamento, ele também sobreviverá a um belo chute nos fundilhos. Sim, fundilhos, porque o amor é varão, “O” amor, assim, com artigo masculino, coisa de macho, com culhões. Então, mande o amor pastar quando for necessário. Ele não vai magoar, não vai guardar rancor, ele vai é ir atrás de outro corpo que valha a pena porque é assim que o amor e os homens agem.
O amor não dramatiza nada, nós é que dramatizamos por ele. Tanto que pra cada descornado que surge há dois casais novos se formando. É o amor que não perdoa e manda ver em quem passar, o amor é oportuno, vai só esperar alguém baixar a guarda e CRÉU ! E nós, que ficamos em casa chorando as pitangas, achamos que ele que é o fraco da história.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Perdão você
Em uma noite de outubro de 1692, em Salém, um povoado de Massachussets, deu-se início ao processo de caça às bruxas, que durante um ano, condenou e matou 20 pessoas, a maioria mulheres, fora 150 pessoas que ficaram a mercê do julgamento, este, que foi interrompido após o juiz Samuel Sewall declarar que havia ido longe demais nas condenações.
Uma vez acusado de bruxaria, o réu passava pelo teste que, inocente ou culpado, o levaria a morte: amarrava-se as duas mãos nas costas e o mergulhava em um lago, isso presenciado pelos familiares e toda sociedade.
Se ele sobrevivesse, seria considerado bruxo, e então, queimado em praça pública. Se morresse, teria sua reputação intacta e à família, devolvida a honra.
Agora finalmente entendi a coerência do processo.
Costumamos matar um amor para descobrirmos que ele é um amor, e sob o corpo do amor morto, damos a devida credibilidade necessária. Durante o julgamento, nada nos abala. Ali, nosso amor de mãos atadas, olhando seu reflexo na água, premeditando o fim ali encurtado e nós, parados, incrédulos, com o julgamento em curso, esperamos pela resposta.
E então a resposta vem. E é tarde demais.
Sem o amor para nos dar importância, damos ao morto o valor que não damos em vida. Esmiuçamos cada manifestação de carinho que ainda sangra na lembrança, choramos por dentro a falta dele, até da ausência consentida, e quando o corpo entorna-se de lágrimas, elas saem, respingando no cadáver frio.
E ele não se mexe. Não há Deus que o faça renascer. Não há lembrança que apazigúe nossa alma de carrasco, não há perdão para nosso ato. A culpa é nossa, não há circustãncia que amenize, só agravantes.
E então damos conta que éramos felizes. E no mesmo segundo, percebemos que não o somos mais.
Então vem o segundo processo: o sepultamento. Devemos, primeiramente, saber que não há volta e que se agarrar ao corpo de nada trará o que foi vivido, não há prolongação depois que nosso amor deu o último suspiro. Não há arrependimento nem declaração que o fará se levantar e nos abraçar.
O amor se foi. E nós ficamos.
O luto é necessário. É o período em que devemos destinar nosso amadurecimento, cobrir a alma de preto, fechar as janelas num domingo de sol, devemos voltar ao nosso bunker e nos soterrar na dor.
Até que nos perdoamos. E prometemos nunca mais repetir tal imaturidade. E só então, mais seguro de si e consciente de que não há amor que perdure em meio a tantas dúvidas, saber que a vida segue e o coração voltará a bater novamente.
E o amor, que julgamos que nunca mais sentiremos, volta, por que o amor é um sentimento oportuno, espera a assepssia do nosso coração para voltar. E ele não tem pressa.
Nós é que temos.
Uma vez acusado de bruxaria, o réu passava pelo teste que, inocente ou culpado, o levaria a morte: amarrava-se as duas mãos nas costas e o mergulhava em um lago, isso presenciado pelos familiares e toda sociedade.
Se ele sobrevivesse, seria considerado bruxo, e então, queimado em praça pública. Se morresse, teria sua reputação intacta e à família, devolvida a honra.
Agora finalmente entendi a coerência do processo.
Costumamos matar um amor para descobrirmos que ele é um amor, e sob o corpo do amor morto, damos a devida credibilidade necessária. Durante o julgamento, nada nos abala. Ali, nosso amor de mãos atadas, olhando seu reflexo na água, premeditando o fim ali encurtado e nós, parados, incrédulos, com o julgamento em curso, esperamos pela resposta.
E então a resposta vem. E é tarde demais.
Sem o amor para nos dar importância, damos ao morto o valor que não damos em vida. Esmiuçamos cada manifestação de carinho que ainda sangra na lembrança, choramos por dentro a falta dele, até da ausência consentida, e quando o corpo entorna-se de lágrimas, elas saem, respingando no cadáver frio.
E ele não se mexe. Não há Deus que o faça renascer. Não há lembrança que apazigúe nossa alma de carrasco, não há perdão para nosso ato. A culpa é nossa, não há circustãncia que amenize, só agravantes.
E então damos conta que éramos felizes. E no mesmo segundo, percebemos que não o somos mais.
Então vem o segundo processo: o sepultamento. Devemos, primeiramente, saber que não há volta e que se agarrar ao corpo de nada trará o que foi vivido, não há prolongação depois que nosso amor deu o último suspiro. Não há arrependimento nem declaração que o fará se levantar e nos abraçar.
O amor se foi. E nós ficamos.
O luto é necessário. É o período em que devemos destinar nosso amadurecimento, cobrir a alma de preto, fechar as janelas num domingo de sol, devemos voltar ao nosso bunker e nos soterrar na dor.
Até que nos perdoamos. E prometemos nunca mais repetir tal imaturidade. E só então, mais seguro de si e consciente de que não há amor que perdure em meio a tantas dúvidas, saber que a vida segue e o coração voltará a bater novamente.
E o amor, que julgamos que nunca mais sentiremos, volta, por que o amor é um sentimento oportuno, espera a assepssia do nosso coração para voltar. E ele não tem pressa.
Nós é que temos.
domingo, 10 de outubro de 2010
Segue
Te amo tanto, e é esse tanto que atrapalha.
Não me basta te ter um dia a cada quinze. Eu preciso me saber sentido, me saber saudoso, me saber querido. Eu preciso.
A distância inquieta e a saudade que nasce no espaço criado quando sua pele se desgruda da minha se expande dentro dela mesma. Eu preciso saber os segundos que faltam para que a minha boca prove o gosto do teu sal.
Não me basta tua presença esporádica, preciso que você bata ponto nos meus sonhos, preciso de você em meus emails, preciso do teu cheiro na minha cama, preciso da tua camiseta suja que me serve de floral pra apaziguar a falta que meu corpo tem do teu.
Não me basta apenas você para matar a saudade de você. Eu preciso dos teus planos, comigo incluso. Dos teus hábitos, comigo construídos. Eu preciso do teu fôlego, o ar carbônico que sai do teu pulmão e invade minhas narinas. Eu preciso de você mais que inteiro, preciso de você do tamanho da minha fantasia, maior que meu delírio, eu preciso de você assim como é e assim como imagino e nenhum dos dois. Eu preciso de você interseccionado, fragmentado, eu preciso carregar você na minha carteira, eu preciso, e com urgência, dos teus restos de comida, da tua louça suja, das tuas meias fedidas, eu preciso de você me amando, me odiando, me retribuindo os gestos e me servindo café na cama. Eu preciso do teu temperamento genioso e da tua simplicidade que ainda não me foi apresentada.
Eu preciso de tudo isso e muito mais. Eu preciso é me dar por satisfeito, preciso meter razão onde só reina fantasia, preciso fincar raízes numa nuvem e é tarefa árdua essa de impor a mim mesmo uma vontade que já nasceu em mim derrotada.
Eu preciso compreender para em seguida aceitar e não apenas redesenhar o relevo que sua agitação provoca no meu cotidiano. Eu preciso apreciar tuas erupções sem me importar com a pele queimando em brasa, eu preciso reiniciar cada vez que você travar, eu preciso gesticular menos, diminuir minha presença na sua presença, preciso retroceder - se é que é cabível voltar atrás em algo que só vai pra trás mesmo. Eu preciso reinventar-me sem ser uma fraude, preciso de 10 kg de maturidade, preciso fazer dos meus olhos o meu corpo e saciar-me o desejo apenas com minhas pupilas, deixar o toque para o inconsiente que me retira de órbita às vésperas dos nossos encontros.
Eu preciso antever a rota e deixar colidir, e de joelhos, juntar os cacos que sobrar dessa trombada. E então, saber esperar pela próxima colisão.
Não me basta te ter um dia a cada quinze. Eu preciso me saber sentido, me saber saudoso, me saber querido. Eu preciso.
A distância inquieta e a saudade que nasce no espaço criado quando sua pele se desgruda da minha se expande dentro dela mesma. Eu preciso saber os segundos que faltam para que a minha boca prove o gosto do teu sal.
Não me basta tua presença esporádica, preciso que você bata ponto nos meus sonhos, preciso de você em meus emails, preciso do teu cheiro na minha cama, preciso da tua camiseta suja que me serve de floral pra apaziguar a falta que meu corpo tem do teu.
Não me basta apenas você para matar a saudade de você. Eu preciso dos teus planos, comigo incluso. Dos teus hábitos, comigo construídos. Eu preciso do teu fôlego, o ar carbônico que sai do teu pulmão e invade minhas narinas. Eu preciso de você mais que inteiro, preciso de você do tamanho da minha fantasia, maior que meu delírio, eu preciso de você assim como é e assim como imagino e nenhum dos dois. Eu preciso de você interseccionado, fragmentado, eu preciso carregar você na minha carteira, eu preciso, e com urgência, dos teus restos de comida, da tua louça suja, das tuas meias fedidas, eu preciso de você me amando, me odiando, me retribuindo os gestos e me servindo café na cama. Eu preciso do teu temperamento genioso e da tua simplicidade que ainda não me foi apresentada.
Eu preciso de tudo isso e muito mais. Eu preciso é me dar por satisfeito, preciso meter razão onde só reina fantasia, preciso fincar raízes numa nuvem e é tarefa árdua essa de impor a mim mesmo uma vontade que já nasceu em mim derrotada.
Eu preciso compreender para em seguida aceitar e não apenas redesenhar o relevo que sua agitação provoca no meu cotidiano. Eu preciso apreciar tuas erupções sem me importar com a pele queimando em brasa, eu preciso reiniciar cada vez que você travar, eu preciso gesticular menos, diminuir minha presença na sua presença, preciso retroceder - se é que é cabível voltar atrás em algo que só vai pra trás mesmo. Eu preciso reinventar-me sem ser uma fraude, preciso de 10 kg de maturidade, preciso fazer dos meus olhos o meu corpo e saciar-me o desejo apenas com minhas pupilas, deixar o toque para o inconsiente que me retira de órbita às vésperas dos nossos encontros.
Eu preciso antever a rota e deixar colidir, e de joelhos, juntar os cacos que sobrar dessa trombada. E então, saber esperar pela próxima colisão.
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