terça-feira, 19 de outubro de 2010

Mandei o amor tomar no cu

Já perceberam que todo mundo trata o amor como se ele fosse de uma delicadeza absurda? Não há um poeta, filósofo, vendedor de livro de auto-ajuda que não mencione que o amor é um sentimento frágil que necessita do amparo de uma gama de sentimentos para sobreviver. Quer saber? Temos mais é que mandar o amor tomar no cu dele.

Temos que parar com a palhaçada de afirmar que o amor é uma plantinha que tem que ser regada diariamente. O amor não é porra nenhuma de plantinha. O amor é uma árvore sequóia, é uma muralha, o amor não é essa coisinha mole e sem sistema imunológico que julgamos que ele é.

Temos que enfiar essa idéia na cabeça para não termos medo de enxotá-lo quando ele não estiver agradando. O mundo está cheio de pessoas que vão protelando essa despedida por acreditarem piamente que o amor é um cristal de vidro e que devemos preservá-lo. Na boa, o amor não é frouxo, não é vidro, não é uma combinação rara entre duas pessoas.

O amor é uma jamanta que te atropela a 200 km por hora. E se você sobreviver ao atropelamento, ele também sobreviverá a um belo chute nos fundilhos. Sim, fundilhos, porque o amor é varão, “O” amor, assim, com artigo masculino, coisa de macho, com culhões. Então, mande o amor pastar quando for necessário. Ele não vai magoar, não vai guardar rancor, ele vai é ir atrás de outro corpo que valha a pena porque é assim que o amor e os homens agem.

O amor não dramatiza nada, nós é que dramatizamos por ele. Tanto que pra cada descornado que surge há dois casais novos se formando. É o amor que não perdoa e manda ver em quem passar, o amor é oportuno, vai só esperar alguém baixar a guarda e CRÉU ! E nós, que ficamos em casa chorando as pitangas, achamos que ele que é o fraco da história.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Perdão você

Em uma noite de outubro de 1692, em Salém, um povoado de Massachussets, deu-se início ao processo de caça às bruxas, que durante um ano, condenou e matou 20 pessoas, a maioria mulheres, fora 150 pessoas que ficaram a mercê do julgamento, este, que foi interrompido após o juiz Samuel Sewall declarar que havia ido longe demais nas condenações.

Uma vez acusado de bruxaria, o réu passava pelo teste que, inocente ou culpado, o levaria a morte: amarrava-se as duas mãos nas costas e o mergulhava em um lago, isso presenciado pelos familiares e toda sociedade.
Se ele sobrevivesse, seria considerado bruxo, e então, queimado em praça pública. Se morresse, teria sua reputação intacta e à família, devolvida a honra.

Agora finalmente entendi a coerência do processo.

Costumamos matar um amor para descobrirmos que ele é um amor, e sob o corpo do amor morto, damos a devida credibilidade necessária. Durante o julgamento, nada nos abala. Ali, nosso amor de mãos atadas, olhando seu reflexo na água, premeditando o fim ali encurtado e nós, parados, incrédulos, com o julgamento em curso, esperamos pela resposta.

E então a resposta vem. E é tarde demais.

Sem o amor para nos dar importância, damos ao morto o valor que não damos em vida. Esmiuçamos cada manifestação de carinho que ainda sangra na lembrança, choramos por dentro a falta dele, até da ausência consentida, e quando o corpo entorna-se de lágrimas, elas saem, respingando no cadáver frio.
E ele não se mexe. Não há Deus que o faça renascer. Não há lembrança que apazigúe nossa alma de carrasco, não há perdão para nosso ato. A culpa é nossa, não há circustãncia que amenize, só agravantes.

E então damos conta que éramos felizes. E no mesmo segundo, percebemos que não o somos mais.

Então vem o segundo processo: o sepultamento. Devemos, primeiramente, saber que não há volta e que se agarrar ao corpo de nada trará o que foi vivido, não há prolongação depois que nosso amor deu o último suspiro. Não há arrependimento nem declaração que o fará se levantar e nos abraçar.

O amor se foi. E nós ficamos.

O luto é necessário. É o período em que devemos destinar nosso amadurecimento, cobrir a alma de preto, fechar as janelas num domingo de sol, devemos voltar ao nosso bunker e nos soterrar na dor.
Até que nos perdoamos. E prometemos nunca mais repetir tal imaturidade. E só então, mais seguro de si e consciente de que não há amor que perdure em meio a tantas dúvidas, saber que a vida segue e o coração voltará a bater novamente.
E o amor, que julgamos que nunca mais sentiremos, volta, por que o amor é um sentimento oportuno, espera a assepssia do nosso coração para voltar. E ele não tem pressa.

Nós é que temos.

domingo, 10 de outubro de 2010

Segue

Te amo tanto, e é esse tanto que atrapalha.

Não me basta te ter um dia a cada quinze. Eu preciso me saber sentido, me saber saudoso, me saber querido. Eu preciso.
A distância inquieta e a saudade que nasce no espaço criado quando sua pele se desgruda da minha se expande dentro dela mesma. Eu preciso saber os segundos que faltam para que a minha boca prove o gosto do teu sal.
Não me basta tua presença esporádica, preciso que você bata ponto nos meus sonhos, preciso de você em meus emails, preciso do teu cheiro na minha cama, preciso da tua camiseta suja que me serve de floral pra apaziguar a falta que meu corpo tem do teu.
Não me basta apenas você para matar a saudade de você. Eu preciso dos teus planos, comigo incluso. Dos teus hábitos, comigo construídos. Eu preciso do teu fôlego, o ar carbônico que sai do teu pulmão e invade minhas narinas. Eu preciso de você mais que inteiro, preciso de você do tamanho da minha fantasia, maior que meu delírio, eu preciso de você assim como é e assim como imagino e nenhum dos dois. Eu preciso de você interseccionado, fragmentado, eu preciso carregar você na minha carteira, eu preciso, e com urgência, dos teus restos de comida, da tua louça suja, das tuas meias fedidas, eu preciso de você me amando, me odiando, me retribuindo os gestos e me servindo café na cama. Eu preciso do teu temperamento genioso e da tua simplicidade que ainda não me foi apresentada.
Eu preciso de tudo isso e muito mais. Eu preciso é me dar por satisfeito, preciso meter razão onde só reina fantasia, preciso fincar raízes numa nuvem e é tarefa árdua essa de impor a mim mesmo uma vontade que já nasceu em mim derrotada.

Eu preciso compreender para em seguida aceitar e não apenas redesenhar o relevo que sua agitação provoca no meu cotidiano. Eu preciso apreciar tuas erupções sem me importar com a pele queimando em brasa, eu preciso reiniciar cada vez que você travar, eu preciso gesticular menos, diminuir minha presença na sua presença, preciso retroceder - se é que é cabível voltar atrás em algo que só vai pra trás mesmo. Eu preciso reinventar-me sem ser uma fraude, preciso de 10 kg de maturidade, preciso fazer dos meus olhos o meu corpo e saciar-me o desejo apenas com minhas pupilas, deixar o toque para o inconsiente que me retira de órbita às vésperas dos nossos encontros.
Eu preciso antever a rota e deixar colidir, e de joelhos, juntar os cacos que sobrar dessa trombada. E então, saber esperar pela próxima colisão.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ao meu príncipe encantado

Você me ama por que eu não te amo.

Eu te amo porque você me ama.

Você não me ama mais por que eu te amo

A estupidez da estrofe acima é o que rege meus relacionamentos, uma relação cármica que governa essa atmosfera da qual cada vez mais desprendo menos energia. É sabido que uma vez conquistado, o objeto amado deixa de ser desejado, confirmando que a expectativa supera - e muito - o prazer do objeto conquistado.
Mas pensei que isso se aplicava somente a camisas, sapatos e bolsas. Desejar algo da vitrine é fácil, a luz incide perfeitamente, o comercial induz status, o cheque especial viabiliza, mas conquistar pessoas e deixa-lãs junto a cintos e sapatos, pendurados no armário à espera de uma lembrança, é inaceitável.
Reconheço tal comportamento porque já fui um desses sapatos. Enquanto me demonstro inatingível, firme, inflexível a qualquer barganha e longe do consumo, sou superiormente interessante. Mas uma vez me conquistado, uma vez ter arrancado as três palavras, perco, e de súbito, todo o interesse inicial.
O meu valor de mercado cai. E então, parte-se rumo a uma nova conquista.
Noto que o que mais aprendo é que ninguém quer um amor e sim um acessório que ande, fale -e principalmente, que fale - pois demonstração de afeto repele qualquer pessoa.
Voce deve dizer, escrever, falar mas nunca demonstrar um carinho. Carinho é sarna, lepra, só de encostar, pega.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Não quero fazer feio no que tenho a dizer, é incomum esse hábito, um papel a mão, com letra, tão pessoal. Receber uma carta manuscrita é mais íntimo que ouvir um eu te amo.
Voce vê que daqui de onde estou eu só me defendo? Você nota que um abraço meu tem que ser milimetricamente calculado afim de não te provocar embaraço?
 Você diz eu te amo com a boca, com emails, torpedos. Não é à toa que te acho superiormente mais interessante do que eu, sempre milhas a frente, você já veio pronto, sabido demais enquanto eu estacionei, versão beta, arcaica, eu deveria ser estudado, não é mais comum tanta cafonice, eu e essa carta escrita combinamos, somos simbióticas, partilhamos juntos da nossa trilha rumo a extinção. Você, mais apto, reina sobre mim.

Fernando

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O medo

Voce me pede calma, eu me peço calma, pedir, pedir, pedir, que tal oferecer uma dose desse negócio que só conheço na teoria? Que tal dividir o segredo de entorpecer os medos, de equilíbrio, de comportamento socialmente aceitável, que tal sorver um pouco do que me aflige, que tal segurar minha mão enquanto essa agulha entra no meu braço vc sabe que odeio agulhas, vc sabe que odeio hospital, vc sabe que não tenho calma. Vc sabe tanto...e me pede somente o que não posso ter.


Eu não sei mais fazer. Seja o que for que essa amostra vá dizer, eu já decidi por mim, é a última vez. Não tenho calma e também não tenho mais vontade de ponderar. Se esse é o tempo que me resta, chega de barganhá-lo. Não me impeça de interromper o tratamento, ele serve para alguém que deseja protelar a vida que se tem, não é meu caso.

Eu não vivi nada do que imaginei e o choque entre os fatos e o meu nítido insucesso fantasioso não é o mais difícil de lidar. O mais difícil é não ter futuro, é o solavanco que vem do estomago, o vomito aparentemente resultado de nervosismo, dessa minha estréia pouco convidativa que é morrer.

Se minha vida não foi interessante, poderei ao menos fazer da minha morte um espetáculo razoavelmente atraente?

Voce não sabe nada, não é você o alvo das retaliações, sou eu que me olho todo dia e penso o que que eu fiz com a merda da minha vida? Vamos, diz você? O que eu fiz?

Eu não fiz nada. Eu vim a passeio, não me aprofundei em nada, meus filhos amam o palhaço que decorou bem as falas e fez as caretas certas, usei meu pai como reflexo inverso e dá-lhe Freud pra explicar meu tendencioso comportamento. Psicologia reversa, eu sei, igual se aplica a crianças.

Eu não cresci, cara, foi isso. Não virei homem. Comer as vagabundas do meu bairro, me formar em engenharia, largar a vida de solteirão, casar, separar, acordar cedo até nos domingos, correr de manhã, comer menos carboidratos, exercício, leituras, tudo tudo cara, tudo foi só na superfície, nunca me aprofundei, fui um eterno rascunho, eu prometia ! Mas não cumpri o esperado, meu prazo venceu, virei um dos projetos que que enterro na gaveta. Não faltou capital, faltou essa coisinha mágica que todos dizem ser o nosso ponto de equilíbrio: maturidade.

Cara, to aqui chorando feito criança, me mijei nas calças porque senti uma pontada, a dor veio, tranquei a respiração pra acelerar o processo, pensei que se eu facilitar não ia doer tanto, jurei é agora, me fudi, quase rezei mas senti que Deus tava olhando e não botou fé na minha reza, pensei no peito que inchava, o sangue que parecia ser feito de magma, fechei os olhos eu não morri, cara eu não morri porra to esperando a morte já aceitei a idéia mas ela não vem, ta assistindo de camarote eu perder minha lucidez, meu amigo, não posso voltar ao hospital, não da mais. Tenho pressa pra crescer, tenho pressa pra entender o homenzinho de nada que fui e quem sabe, aos 45 do segundo tempo, ganhar paz de espírito pro inevitável.

Dizem que admitir sua fraqueza já é sinal de sabedoria. Eu espero que isso ajude.

Um abraço do seu amigo


Tom

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Meu vício agora

Bom dia!

Volto a te remeter as cartas pois em mim os olhos estão arejados. Voltei-os a janela, estes mesmos que estavam pueris em tempos ímpetos, numa introspectiva insonssa, maculados por um futuro que não veio, agora retornam sob uma ótica que já julgava inexistente.
Te volto a escrever porque hoje em mim faz verão, um pequeno sol nasceu, fissão de duas bocas que se encontraram simetricamente, evento raro de se observar a olho nu. Preciso que voce entenda: esse amor me recolocou nos eixos.
Não vim agradecer pelo que hoje me é presente - presente, nao haveria palavra mais adequada. Vim comunicar que se há lição a ser observada, vou perceber mais tarde. Vou me queimar inteiro nessa brasa, coração incluído, consiência incluída. Daqui pra dentro tudo que tenho te pertence, voce ganhou minhas chaves e meu acesso íntimo, então peço, fique mais um pouco, está frio lá fora e aqui a sua mão encostada a minha me revela segurança. Se afasto um centímetro da sua pele, o vão ali criado se enche de saudade, então venha, desacelere a pressa, fique mais um pouco.
Mais
ou pouco.
Mas fique.