Sem viadagem e sem rodeio: eu te amo, cara. E não me olha torto porque essa parada ainda é nova pra mim que tu tá sabendo. Sei que voce tá pensando "e a tua mulher e os teus filhos? que que tua família vai pensar?" e eu já te adianto: foda-se. Foda-se o que o vizinho vai falar, ele que vá a merda junto com todos que vierem soltar piadinhas. Mas a moral é éssa: te amo e não quero que você vá embora.
Pô, cara. Eu não ia ratear de entrar nessa sabendo que você quer cair fora, mas eu sei que você quer ficar e sei também que essa situação te incomoda e é ela que está te fazendo ir. Me dá dois dias, só o tempo de eu ir pra casa e falar pra minha mulher, explicar pra ela que não eras mais manter esse casamento e então tu vem morar comigo.
De boa, sem sacanagem. Sei que ela vai pirar, nem passa pela cabeça dela - duas semanas atrás nem passava pela minha também - mas não tô mais afim, perdeu a graça ficar inventando desculpinha pra não ir pra casa. Ela já está grilada achando que to comendo alguma estagiária ou coisa parecida, sei lá, cabeça de mulher só pensa o que não deve. O baque vai ser dizer que to saindo pra morar com outro cara. Pra morar contigo, meo !
As crianças ainda estão pequenas, não tem porque dar muito detalhe. Vou continuar sendo o paizão delas, nada muda nessa parte e desculpa tá falando essas merda tu não sabe como tá minha cabeça então releva os detalhes, cancela a passagem e encara essa comigo que sei que não vamos nos arrepender. Tô naquele hotel que a gente se vê sempre, me liga assim que escutar essa mensagem.
Régis
domingo, 13 de setembro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Catherine
Passo meu legado a este jardim pois é nele que mais me reconheço. Catherine, apesar de só ter oito anos, já demonstrou ser referência a Maurice e não a mim. Ela é firme, porém doce, caracterizada por uma infinidade de contrastes e imprevistos que se destoam completamente da minha forma previsível. Ela se aproxima cada vez mais de Maurice nos traços e no comportamento, o que atribuo ao acaso e não a falta de receptividade. O que nos une é o amor mútuo, este que supera essa nossa carência de semelhanças.
Eu a amo e as provas desse amor são complexas demais para que ela as absorva, e a maneira que ela retribui está a anos-luz do meu entendimento. Catherine é o mistério que entrego ao mundo para ser revelado e estas cartas deixo a ela para que um dia eu me revele.
Cecília
Eu a amo e as provas desse amor são complexas demais para que ela as absorva, e a maneira que ela retribui está a anos-luz do meu entendimento. Catherine é o mistério que entrego ao mundo para ser revelado e estas cartas deixo a ela para que um dia eu me revele.
Cecília
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Aqui
Mesmo contrariando minha sensatez te permitir entrar, e voce sem o menor constrangimento se apossou da varanda e do melhor quarto. Quem passava pela frente logo via que havia vida novamente naquele espaço que outrora abrigava nada. As paredes se impregnaram da sua presença de uma forma que a sua sombra moldou-se e hoje faz parte da decoração. Então você não deu-se por satisfeito - ou cresceu sem pedir muito, igual uma planta que só pede luz e água - e invadiu mais um cômodo, e em seguida outro e em seguida outro...
O corredor, que antes era decorado por quadros meus, perdeu o charme rústico e logo se irradiou pelo brilho azul que vem da tua face. Saí eu e me instalei nos fundos, onde pensei que estaria livre da sua estalagem.
Mas não! Logo senti os primeiros sinais de que em breve deveria buscar outro lugar pois ali não caberia duas pessoas, e sem você pedir saiu eu, lhe deixando livre para reinar no que um dia cultivei a mim mesmo e chamei de lar.
Mas agora, passado tanto tempo, retorno e não vejo mais o brilho azul, a sombra na parede nem a vida que se irradia. Vejo você ali, caminhando entre os cômodos e finalmente percebi que o que dera toda aquele charme era a intersecção resultante de mim e de você, e finalmente entendi que deveria voltar e me harmonizar novamente a sua presença. Mas ainda não sei se peço licença para ocupar um coração que antes era meu ou se chego invadindo, igual fizeste comigo.
O corredor, que antes era decorado por quadros meus, perdeu o charme rústico e logo se irradiou pelo brilho azul que vem da tua face. Saí eu e me instalei nos fundos, onde pensei que estaria livre da sua estalagem.
Mas não! Logo senti os primeiros sinais de que em breve deveria buscar outro lugar pois ali não caberia duas pessoas, e sem você pedir saiu eu, lhe deixando livre para reinar no que um dia cultivei a mim mesmo e chamei de lar.
Mas agora, passado tanto tempo, retorno e não vejo mais o brilho azul, a sombra na parede nem a vida que se irradia. Vejo você ali, caminhando entre os cômodos e finalmente percebi que o que dera toda aquele charme era a intersecção resultante de mim e de você, e finalmente entendi que deveria voltar e me harmonizar novamente a sua presença. Mas ainda não sei se peço licença para ocupar um coração que antes era meu ou se chego invadindo, igual fizeste comigo.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Inside
...e desconfiei do pão é café oferecido. Enquanto mastigava, inconsientemene ordenava à lingua que vasculhasse o pão à procura de algum gosto estranho. E da gentileza desconfiei, e por desconfiar sem razão, vi que minha natureza é má.
Sou má, Francisco. Eu transito pelo bem por ventura, mas minha essência é má.
Sou má, Francisco. Eu transito pelo bem por ventura, mas minha essência é má.
domingo, 19 de julho de 2009
É como perder uma perna ou um braço. Eu tateio além do meu corpo e não te acho. Me envolvo no abraço que não te dei e sinto um arrepio que me confirma que você não está ali pra responder. Não me sinto mais autêntica, está faltando partes que perdi no caminho da tua casa. Não me reconheço no meu reflexo, vejo teu rosto na minha pupila.
Eu me [sinto sua. Falta] algo.
Eu me [sinto sua. Falta] algo.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Ninho vazio
Não, não há nada da minha história naquele bebê. Ele nasceu nu e branco, exatamente as referências que me ligam a ele. Ou melhor, que não me ligam a coisa alguma.
Não sinto ódio nem nada. Por Deus, Francisco ! Eu não odeio aquele bebê, apenas não me reconheço nele.
Ele é um estranho que saiu de dentro de mim, só isso. E essa cobrança de um amor que não oferto me faz rejeitá-lo, deixando-o chorar noite adentro por vergonha que sinto em dar-lhe o peito.
Descobri tarde demais que não possuo instinto materno e não desejo nada dependente a mim. Não sinto votnade de vê-lo crescer, nem fico procurando semelhanças suas ou minhas no rosto dele.
Apesar de eu estar do lado do berço, ele nasceu órfão de pai e mãe e esse choro icessante talvez não seja apenas fome mas também a forma que ele encontrou para manifestar o seu luto.
Não sinto ódio nem nada. Por Deus, Francisco ! Eu não odeio aquele bebê, apenas não me reconheço nele.
Ele é um estranho que saiu de dentro de mim, só isso. E essa cobrança de um amor que não oferto me faz rejeitá-lo, deixando-o chorar noite adentro por vergonha que sinto em dar-lhe o peito.
Descobri tarde demais que não possuo instinto materno e não desejo nada dependente a mim. Não sinto votnade de vê-lo crescer, nem fico procurando semelhanças suas ou minhas no rosto dele.
Apesar de eu estar do lado do berço, ele nasceu órfão de pai e mãe e esse choro icessante talvez não seja apenas fome mas também a forma que ele encontrou para manifestar o seu luto.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Origens
Apesar de todo o esforço realizado, de toda a cortesia e educação que tive desde o momento que fui gentilmente recebido no aeroporto, nada ameniza a agonia de esperar o desfecho.
Tudo girava em torno de minha presença e toda aquela atenção me sufocava, pois sabia que a qualquer momento seria dissecado, e o passado que sempre esteve comigo seria exposto como uma aberração circense.
Tentei reaver a paz de espirito e prossegui com a encenação mas logo após ter o prato servido pela empregada, interrompi a anfitriã que assoprava o que seria sua primeira colherada.
- O que voce quer de mim? falei num tom mais alto do que gostaria, quebrando o silencio que unia meu corpo ao dela. Como um reflexo involuntário, ela suavemente colocou a colher de volta ao prato e me fitou diretamente. Foi entao que notei que seus olhos eram verdes. Verdes e frios.
- Eu que pergunto, Francisco. O que voce quer? Antes de aceitar a minha proposta, você ja tinha em mãos tudo que precisava para entrar com uma ação judicial e qualquer juíz com meio cérebro daria a causa ganha. Mas respondendo a sua pergunta, eu quero, através de voce, entender quem foi de fato a minha mãe.
- Está certo. Respondi e ao ouvi-la, notei alívio em sua resposta. Talvez ela ansiava por minha interrupção e pela minha objetividade.
- Mas antes, quero gravar toda a conversa. Voce se importa?
Antes que eu respondesse, ela já havia tirado dois minigravadores da bolsa e os posicionou no centro da mesa e antecipando a pergunta que faria, respondeu:
- Uma via fica comigo e a outra pra voce. Decidi gravar pois não quero que nenhum detalhe me escape.
CONTINUA
Tudo girava em torno de minha presença e toda aquela atenção me sufocava, pois sabia que a qualquer momento seria dissecado, e o passado que sempre esteve comigo seria exposto como uma aberração circense.
Tentei reaver a paz de espirito e prossegui com a encenação mas logo após ter o prato servido pela empregada, interrompi a anfitriã que assoprava o que seria sua primeira colherada.
- O que voce quer de mim? falei num tom mais alto do que gostaria, quebrando o silencio que unia meu corpo ao dela. Como um reflexo involuntário, ela suavemente colocou a colher de volta ao prato e me fitou diretamente. Foi entao que notei que seus olhos eram verdes. Verdes e frios.
- Eu que pergunto, Francisco. O que voce quer? Antes de aceitar a minha proposta, você ja tinha em mãos tudo que precisava para entrar com uma ação judicial e qualquer juíz com meio cérebro daria a causa ganha. Mas respondendo a sua pergunta, eu quero, através de voce, entender quem foi de fato a minha mãe.
- Está certo. Respondi e ao ouvi-la, notei alívio em sua resposta. Talvez ela ansiava por minha interrupção e pela minha objetividade.
- Mas antes, quero gravar toda a conversa. Voce se importa?
Antes que eu respondesse, ela já havia tirado dois minigravadores da bolsa e os posicionou no centro da mesa e antecipando a pergunta que faria, respondeu:
- Uma via fica comigo e a outra pra voce. Decidi gravar pois não quero que nenhum detalhe me escape.
CONTINUA
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