terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Espero

Tentei ser cordial no convite mas minhas palavras não camuflaram a ansiedade e insegurança que aquele encontro me provocava. Pensei em ser ríspida mas logo vi que não havia a necessidade de farpas, muito pelo contrário, era um encontro de rosas e o único espinho que por ventura machucaria não me causaria dor. Restava saber o quanto minha convidada estaria disposta a sangrar, mesmo que este fosse o último recurso para aquilo que ela e Maurice carregavam. Meu medo era ir longe demais no que de fato não me cabe, porém, a proximidade do fim nos enche de uma coragem avassaladora, nos retira o medo de consequências, nos retorna a imaturidade perdida quando descobrimos que a todo ato terá não apenas uma, mas várias consequencias.
Não, não era a imaturidade que me motivava a me encontrar com o primeiro amor de Maurice. Era como se caso eu os salvassem, estaria salvando a mim mesma. Esta foi a forma que encontrei de ver nos outros o amor que não me foi concedido. Foi, entre outros motivos, a minha forma póstuma de revelar o quanto me sinto agraciada pelo amor ofertado deste homem que não enxergo defeitos, que não vejo vestígios que denunciem melhorias, deste homem que me aceitou pela metade e mal sabe que me teve por inteira. Sinto culpa de fazê-lo sofrer novamente, de fazê-lo crer que ele não é homem que viverá de amor, logo ele, tão capacitado para isto, amar.
É inevitável que mediante o que passo eu não pense em amenizar os danos que minha saída fará na vida dos que amo. Não posso olhar os olhos de Maurice que o choro vem manso, subterrâneo e o prolongamento do ato de olhá-lo logo denunciaria que algo está errado.
Quanto mais eu descubro que o amo, mais sofro por anteceder seu sofrimento. Eu choro por antever um final que ele não merece e não pela minha morte. Eu choro por não ter tempo o suficiente de agradecer, de quebrar a promessa de ficar velha e besta de tanto amar este homem que nada pede, apenas doa. Logo ele, que tem todos os motivos para não amar, o faz por alguém que de fato não o merece. Ninguém merece o amor de Maurice, exceto esta mulher, que espero com toda minha fé, que venha hoje a esta casa.

Cecília
21/12/1989

domingo, 13 de setembro de 2009

Caixa Postal

Sem viadagem e sem rodeio: eu te amo, cara. E não me olha torto porque essa parada ainda é nova pra mim que tu tá sabendo. Sei que voce tá pensando "e a tua mulher e os teus filhos? que que tua família vai pensar?" e eu já te adianto: foda-se. Foda-se o que o vizinho vai falar, ele que vá a merda junto com todos que vierem soltar piadinhas. Mas a moral é éssa: te amo e não quero que você vá embora.
Pô, cara. Eu não ia ratear de entrar nessa sabendo que você quer cair fora, mas eu sei que você quer ficar e sei também que essa situação te incomoda e é ela que está te fazendo ir. Me dá dois dias, só o tempo de eu ir pra casa e falar pra minha mulher, explicar pra ela que não eras mais manter esse casamento e então tu vem morar comigo.
De boa, sem sacanagem. Sei que ela vai pirar, nem passa pela cabeça dela - duas semanas atrás nem passava pela minha também - mas não tô mais afim, perdeu a graça ficar inventando desculpinha pra não ir pra casa. Ela já está grilada achando que to comendo alguma estagiária ou coisa parecida, sei lá, cabeça de mulher só pensa o que não deve. O baque vai ser dizer que to saindo pra morar com outro cara. Pra morar contigo, meo !
As crianças ainda estão pequenas, não tem porque dar muito detalhe. Vou continuar sendo o paizão delas, nada muda nessa parte e desculpa tá falando essas merda tu não sabe como tá minha cabeça então releva os detalhes, cancela a passagem e encara essa comigo que sei que não vamos nos arrepender. Tô naquele hotel que a gente se vê sempre, me liga assim que escutar essa mensagem.

Régis

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Catherine

Passo meu legado a este jardim pois é nele que mais me reconheço. Catherine, apesar de só ter oito anos, já demonstrou ser referência a Maurice e não a mim. Ela é firme, porém doce, caracterizada por uma infinidade de contrastes e imprevistos que se destoam completamente da minha forma previsível. Ela se aproxima cada vez mais de Maurice nos traços e no comportamento, o que atribuo ao acaso e não a falta de receptividade. O que nos une é o amor mútuo, este que supera essa nossa carência de semelhanças.
Eu a amo e as provas desse amor são complexas demais para que ela as absorva, e a maneira que ela retribui está a anos-luz do meu entendimento. Catherine é o mistério que entrego ao mundo para ser revelado e estas cartas deixo a ela para que um dia eu me revele.

Cecília

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Aqui

Mesmo contrariando minha sensatez te permitir entrar, e voce sem o menor constrangimento se apossou da varanda e do melhor quarto. Quem passava pela frente logo via que havia vida novamente naquele espaço que outrora abrigava nada. As paredes se impregnaram da sua presença de uma forma que a sua sombra moldou-se e hoje faz parte da decoração. Então você não deu-se por satisfeito - ou cresceu sem pedir muito, igual uma planta que só pede luz e água - e invadiu mais um cômodo, e em seguida outro e em seguida outro...

O corredor, que antes era decorado por quadros meus, perdeu o charme rústico e logo se irradiou pelo brilho azul que vem da tua face. Saí eu e me instalei nos fundos, onde pensei que estaria livre da sua estalagem.

Mas não! Logo senti os primeiros sinais de que em breve deveria buscar outro lugar pois ali não caberia duas pessoas, e sem você pedir saiu eu, lhe deixando livre para reinar no que um dia cultivei a mim mesmo e chamei de lar.

Mas agora, passado tanto tempo, retorno e não vejo mais o brilho azul, a sombra na parede nem a vida que se irradia. Vejo você ali, caminhando entre os cômodos e finalmente percebi que o que dera toda aquele charme era a intersecção resultante de mim e de você, e finalmente entendi que deveria voltar e me harmonizar novamente a sua presença. Mas ainda não sei se peço licença para ocupar um coração que antes era meu ou se chego invadindo, igual fizeste comigo.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Inside

...e desconfiei do pão é café oferecido. Enquanto mastigava, inconsientemene ordenava à lingua que vasculhasse o pão à procura de algum gosto estranho. E da gentileza desconfiei, e por desconfiar sem razão, vi que minha natureza é má.

Sou má, Francisco. Eu transito pelo bem por ventura, mas minha essência é má.

domingo, 19 de julho de 2009

É como perder uma perna ou um braço. Eu tateio além do meu corpo e não te acho. Me envolvo no abraço que não te dei e sinto um arrepio que me confirma que você não está ali pra responder. Não me sinto mais autêntica, está faltando partes que perdi no caminho da tua casa. Não me reconheço no meu reflexo, vejo teu rosto na minha pupila.

Eu me [sinto sua. Falta] algo.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ninho vazio

Não, não há nada da minha história naquele bebê. Ele nasceu nu e branco, exatamente as referências que me ligam a ele. Ou melhor, que não me ligam a coisa alguma.
Não sinto ódio nem nada. Por Deus, Francisco ! Eu não odeio aquele bebê, apenas não me reconheço nele.
Ele é um estranho que saiu de dentro de mim, só isso. E essa cobrança de um amor que não oferto me faz rejeitá-lo, deixando-o chorar noite adentro por vergonha que sinto em dar-lhe o peito.
Descobri tarde demais que não possuo instinto materno e não desejo nada dependente a mim. Não sinto votnade de vê-lo crescer, nem fico procurando semelhanças suas ou minhas no rosto dele.
Apesar de eu estar do lado do berço, ele nasceu órfão de pai e mãe e esse choro icessante talvez não seja apenas fome mas também a forma que ele encontrou para manifestar o seu luto.