Voce me pede calma, eu me peço calma, pedir, pedir, pedir, que tal oferecer uma dose desse negócio que só conheço na teoria? Que tal dividir o segredo de entorpecer os medos, de equilíbrio, de comportamento socialmente aceitável, que tal sorver um pouco do que me aflige, que tal segurar minha mão enquanto essa agulha entra no meu braço vc sabe que odeio agulhas, vc sabe que odeio hospital, vc sabe que não tenho calma. Vc sabe tanto...e me pede somente o que não posso ter.
Eu não sei mais fazer. Seja o que for que essa amostra vá dizer, eu já decidi por mim, é a última vez. Não tenho calma e também não tenho mais vontade de ponderar. Se esse é o tempo que me resta, chega de barganhá-lo. Não me impeça de interromper o tratamento, ele serve para alguém que deseja protelar a vida que se tem, não é meu caso.
Eu não vivi nada do que imaginei e o choque entre os fatos e o meu nítido insucesso fantasioso não é o mais difícil de lidar. O mais difícil é não ter futuro, é o solavanco que vem do estomago, o vomito aparentemente resultado de nervosismo, dessa minha estréia pouco convidativa que é morrer.
Se minha vida não foi interessante, poderei ao menos fazer da minha morte um espetáculo razoavelmente atraente?
Voce não sabe nada, não é você o alvo das retaliações, sou eu que me olho todo dia e penso o que que eu fiz com a merda da minha vida? Vamos, diz você? O que eu fiz?
Eu não fiz nada. Eu vim a passeio, não me aprofundei em nada, meus filhos amam o palhaço que decorou bem as falas e fez as caretas certas, usei meu pai como reflexo inverso e dá-lhe Freud pra explicar meu tendencioso comportamento. Psicologia reversa, eu sei, igual se aplica a crianças.
Eu não cresci, cara, foi isso. Não virei homem. Comer as vagabundas do meu bairro, me formar em engenharia, largar a vida de solteirão, casar, separar, acordar cedo até nos domingos, correr de manhã, comer menos carboidratos, exercício, leituras, tudo tudo cara, tudo foi só na superfície, nunca me aprofundei, fui um eterno rascunho, eu prometia ! Mas não cumpri o esperado, meu prazo venceu, virei um dos projetos que que enterro na gaveta. Não faltou capital, faltou essa coisinha mágica que todos dizem ser o nosso ponto de equilíbrio: maturidade.
Cara, to aqui chorando feito criança, me mijei nas calças porque senti uma pontada, a dor veio, tranquei a respiração pra acelerar o processo, pensei que se eu facilitar não ia doer tanto, jurei é agora, me fudi, quase rezei mas senti que Deus tava olhando e não botou fé na minha reza, pensei no peito que inchava, o sangue que parecia ser feito de magma, fechei os olhos eu não morri, cara eu não morri porra to esperando a morte já aceitei a idéia mas ela não vem, ta assistindo de camarote eu perder minha lucidez, meu amigo, não posso voltar ao hospital, não da mais. Tenho pressa pra crescer, tenho pressa pra entender o homenzinho de nada que fui e quem sabe, aos 45 do segundo tempo, ganhar paz de espírito pro inevitável.
Dizem que admitir sua fraqueza já é sinal de sabedoria. Eu espero que isso ajude.
Um abraço do seu amigo
Tom
terça-feira, 14 de setembro de 2010
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Meu vício agora
Bom dia!
Volto a te remeter as cartas pois em mim os olhos estão arejados. Voltei-os a janela, estes mesmos que estavam pueris em tempos ímpetos, numa introspectiva insonssa, maculados por um futuro que não veio, agora retornam sob uma ótica que já julgava inexistente.
Te volto a escrever porque hoje em mim faz verão, um pequeno sol nasceu, fissão de duas bocas que se encontraram simetricamente, evento raro de se observar a olho nu. Preciso que voce entenda: esse amor me recolocou nos eixos.
Não vim agradecer pelo que hoje me é presente - presente, nao haveria palavra mais adequada. Vim comunicar que se há lição a ser observada, vou perceber mais tarde. Vou me queimar inteiro nessa brasa, coração incluído, consiência incluída. Daqui pra dentro tudo que tenho te pertence, voce ganhou minhas chaves e meu acesso íntimo, então peço, fique mais um pouco, está frio lá fora e aqui a sua mão encostada a minha me revela segurança. Se afasto um centímetro da sua pele, o vão ali criado se enche de saudade, então venha, desacelere a pressa, fique mais um pouco.
Mais
ou pouco.
Mas fique.
Volto a te remeter as cartas pois em mim os olhos estão arejados. Voltei-os a janela, estes mesmos que estavam pueris em tempos ímpetos, numa introspectiva insonssa, maculados por um futuro que não veio, agora retornam sob uma ótica que já julgava inexistente.
Te volto a escrever porque hoje em mim faz verão, um pequeno sol nasceu, fissão de duas bocas que se encontraram simetricamente, evento raro de se observar a olho nu. Preciso que voce entenda: esse amor me recolocou nos eixos.
Não vim agradecer pelo que hoje me é presente - presente, nao haveria palavra mais adequada. Vim comunicar que se há lição a ser observada, vou perceber mais tarde. Vou me queimar inteiro nessa brasa, coração incluído, consiência incluída. Daqui pra dentro tudo que tenho te pertence, voce ganhou minhas chaves e meu acesso íntimo, então peço, fique mais um pouco, está frio lá fora e aqui a sua mão encostada a minha me revela segurança. Se afasto um centímetro da sua pele, o vão ali criado se enche de saudade, então venha, desacelere a pressa, fique mais um pouco.
Mais
ou pouco.
Mas fique.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
"Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue."
Você me ganhou de presente - Paula Toller
Você me ganhou de presente
Com laço e etiqueta de garantia
Foi num dia de alegria
Você fez bem o gesto que eu queria
Mas não deu mole
Não deu mole
Não deu mole
Você não deu mole
Nunca esteve numa de me alcançar
Nem estava no 'mood' de casar
Eu sempre estive à mão, que isso me console
Mas você não
Você não deu mole
Você me ganhou de presente
No laço e na promessa de guarita
Você me sorriu na galeria
E tinha bem o gosto que eu queria,
Mas não deu mole
Não deu mole
Não deu mole, meu bem
Você não deu mole
Nunca teve medo de me ver partir
Nem vai perder seu tempo pra me desmentir
Nem me criticar
Eu que me controle
Porque você não
Você não dá mole
Se eu chorar, você até se comove
Mas assim já é demais
Nem eu me agüento
Porque eu não dou mole
Eu não dou mole
Não dou mole, meu bem
Também não dou mole...
Você me ganhou de presente
Com laço e etiqueta de garantia
Foi num dia de alegria
Você fez bem o gesto que eu queria
Mas não deu mole
Não deu mole
Não deu mole
Você não deu mole
Nunca esteve numa de me alcançar
Nem estava no 'mood' de casar
Eu sempre estive à mão, que isso me console
Mas você não
Você não deu mole
Você me ganhou de presente
No laço e na promessa de guarita
Você me sorriu na galeria
E tinha bem o gosto que eu queria,
Mas não deu mole
Não deu mole
Não deu mole, meu bem
Você não deu mole
Nunca teve medo de me ver partir
Nem vai perder seu tempo pra me desmentir
Nem me criticar
Eu que me controle
Porque você não
Você não dá mole
Se eu chorar, você até se comove
Mas assim já é demais
Nem eu me agüento
Porque eu não dou mole
Eu não dou mole
Não dou mole, meu bem
Também não dou mole...
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Cólera
E tua lingua que antes passou pela dela, deixou o vestígio do crime que na minha boca virou cólera. Escorreu pela garganta, veio de bom grado, porém se desmanchou até o estomago, iniciando a cólica que sinalizou o primeiro sintoma do que me envenenou.
Teu corpo, antes meu, possessivo e singular, conjugou o verbo no qual não tenho destreza: nosso. Tuas mãos, mornas e tímidas, agora estão inquietas de olho no relógio que imagino ter sido presente dela. Ele não combina com você, grande demais, acusa o tempo que me resta e diz: volte.
Teu corpo, antes meu, possessivo e singular, conjugou o verbo no qual não tenho destreza: nosso. Tuas mãos, mornas e tímidas, agora estão inquietas de olho no relógio que imagino ter sido presente dela. Ele não combina com você, grande demais, acusa o tempo que me resta e diz: volte.
terça-feira, 11 de maio de 2010
carta 27 - parte 1
Peço desculpas pela voz rouca, se eu pudesse eu lhe escreveria, mas o avanço da doença me impossibilita disso. Lembro - e lembra me é custoso que só eu sei - que foi em um dia claro, porém chuvoso, que notei que não havia firmeza no meu pulso e ele se partiu. A minha última palavra escrita foi "viver", o que soou totalmente contraditório ao que aconteceu. No segundo seguinte ao meu gemido de dor e a ouvir o som cristalino da caneta que rolou para baixo da cama eu morri, pois o que me motivava a viver era o meu desejo de ver esta história chegar aos seus olhos pois sempre tivemos um melhor entendimento pelas palavras, já que as falas, que foram escassas, se contradiziam ao que nos unia. Ou une, eu não sei, ja que não tenho notícias suas há mais de trinta anos e trinta anos não foi tempo suficiente pra te esquecer, apenas no máximo deslocou dos holofotes esse sentimento que carrego contigo, aquele primeiro, bom, e não são variantes, que voce pode acompanhar pelos meus diários.
Imagino seu constrangimento em ouvir essa voz cansada e velha, eu mesma não me reconheço com esse timbre, cansa falar no mesmo ritmo do pensamento, eu sintetizo antes de falar e esqueço, eu mesma não me reconheço, assim como ainda não reconheço de ter feito o que fiz: tornei público meu único segredo e aguardei até o último instante e morrerei esperançosa, aceita de minha irrealização e consiente do que arrisquei, e te digo, não houve risco algum, nem acertos e erros. Houve apenas fatos que não podem s classificar a mesquinhas dos nossos princípios. Não há do que se envergonhar, Francisco, e nao há lamúrias a serem feitas. Precisei renunciar a muita coisa para prosseguir com essa gravação e nunca uma renúncia foi feita com tamanha alegria, logo eu, que nunca suportei perder, aprendi que perder é processo de maturidade.
Não tenho o menor esboço de qual está sendo sua reação a tudo isso, mas peço zelo da sua parte. Não testemunhei amor maior do que este que tenho por ti, esse amor que alimenta-se dele mesmo, que nada pede, que não mediu nem se enquadrou em tudo que li e pense que fosse amar e por ser imensurável, intraduzível, soube que é amor. Te amo além de mim mesma e com toda a fúria e encanto da descoberta e com todo o amadurecimento e a saudade do fim. Não fim do amor, esse perdurou, s desgarrou de mim e segue, meu corpo que não o acompanha mais.
Cecília 19/11/1999
Imagino seu constrangimento em ouvir essa voz cansada e velha, eu mesma não me reconheço com esse timbre, cansa falar no mesmo ritmo do pensamento, eu sintetizo antes de falar e esqueço, eu mesma não me reconheço, assim como ainda não reconheço de ter feito o que fiz: tornei público meu único segredo e aguardei até o último instante e morrerei esperançosa, aceita de minha irrealização e consiente do que arrisquei, e te digo, não houve risco algum, nem acertos e erros. Houve apenas fatos que não podem s classificar a mesquinhas dos nossos princípios. Não há do que se envergonhar, Francisco, e nao há lamúrias a serem feitas. Precisei renunciar a muita coisa para prosseguir com essa gravação e nunca uma renúncia foi feita com tamanha alegria, logo eu, que nunca suportei perder, aprendi que perder é processo de maturidade.
Não tenho o menor esboço de qual está sendo sua reação a tudo isso, mas peço zelo da sua parte. Não testemunhei amor maior do que este que tenho por ti, esse amor que alimenta-se dele mesmo, que nada pede, que não mediu nem se enquadrou em tudo que li e pense que fosse amar e por ser imensurável, intraduzível, soube que é amor. Te amo além de mim mesma e com toda a fúria e encanto da descoberta e com todo o amadurecimento e a saudade do fim. Não fim do amor, esse perdurou, s desgarrou de mim e segue, meu corpo que não o acompanha mais.
Cecília 19/11/1999
carta número 9
Me ofenda, me peça pra ser sua amante, me alimente com migalhas, me seduza como uma vagabunda pois é isto que me resume mas te peço, não me olhe com ternura. Me de todos os motivos pra te odiar, a receita é fácil, me use como você usa suas toalhas, me passe pelo seu corpo e me ponha pra secar ao sol, assim há de se extingir, não há querer que não se arrebente, não há amor que pedure, não há grito que não se silencie.
Cecília
Cecília
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Se
E se soubesse esperar
se eu soubesse prever
ou se soubesse ouvir
Isso faria alguma diferença?
E se eu pudesse convenver
Se...
Se você viesse quando insiste em ir
e se pegasse na minha mão e a levasse a boca
se amasasse o lencol com o peso do seu corpo
e o molhasse com a toalha do banho que não te dei
Se...
se acreditasse que sou uma tola em tentar escrever
em pedir em palavras
em acreditar em reflexões
em implorar sem fazer nada
em ir sem sair do lugar
em vigiar sem sequer lhe ver
voce entenderia?
voce acreditaria?
daria credibilidade?
daria afeto?
daria importância?
Se...
fosse a fase que antevesse o nosso encontro
se te encontrasse na tua forma singular
se o caminho da tua casa fosse outro
se a vontade de te ter não oferecesse obstáculo
se o sinal verde fosse ligado
se voce se permitisse
eu seria feliz?
eu seria feliz com voce?
voce comigo?
nós dois, um, ou nós dois, nada?
Se ao menos voce soubesse...
se deixasse...
me permitisse...
se me seguisse...
se me olhasse...
Se...
se eu soubesse prever
ou se soubesse ouvir
Isso faria alguma diferença?
E se eu pudesse convenver
Se...
Se você viesse quando insiste em ir
e se pegasse na minha mão e a levasse a boca
se amasasse o lencol com o peso do seu corpo
e o molhasse com a toalha do banho que não te dei
Se...
se acreditasse que sou uma tola em tentar escrever
em pedir em palavras
em acreditar em reflexões
em implorar sem fazer nada
em ir sem sair do lugar
em vigiar sem sequer lhe ver
voce entenderia?
voce acreditaria?
daria credibilidade?
daria afeto?
daria importância?
Se...
fosse a fase que antevesse o nosso encontro
se te encontrasse na tua forma singular
se o caminho da tua casa fosse outro
se a vontade de te ter não oferecesse obstáculo
se o sinal verde fosse ligado
se voce se permitisse
eu seria feliz?
eu seria feliz com voce?
voce comigo?
nós dois, um, ou nós dois, nada?
Se ao menos voce soubesse...
se deixasse...
me permitisse...
se me seguisse...
se me olhasse...
Se...
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