segunda-feira, 26 de abril de 2010

Se

E se soubesse esperar
se eu soubesse prever
ou se soubesse ouvir

Isso faria alguma diferença?
E se eu pudesse convenver

Se...

Se você viesse quando insiste em ir
e se pegasse na minha mão e a levasse a boca
se amasasse o lencol com o peso do seu corpo
e o molhasse com a toalha do banho que não te dei

Se...

se acreditasse que sou uma tola em tentar escrever
em pedir em palavras
em acreditar em reflexões
em implorar sem fazer nada
em ir sem sair do lugar
em vigiar sem sequer lhe ver
voce entenderia?
voce acreditaria?
daria credibilidade?
daria afeto?
daria importância?

Se...

fosse a fase que antevesse o nosso encontro
se te encontrasse na tua forma singular
se o caminho da tua casa fosse outro
se a vontade de te ter não oferecesse obstáculo
se o sinal verde fosse ligado
se voce se permitisse

eu seria feliz?
eu seria feliz com voce?
voce comigo?
nós dois, um, ou nós dois, nada?

Se ao menos voce soubesse...
se deixasse...
me permitisse...
se me seguisse...
se me olhasse...

Se...

quinta-feira, 25 de março de 2010

Pacto - parte I

Fui promovida, terminei de ler – e entender, ou o mais perto que chegarei de entender - aquele livro da Clarice Lispector onde ela come uma barata. Ganhei um quadro lindo numa rifa e agora acredito que o número 24, o número do tal bilhete, é um número de sorte. Assisti cerca de cinco filmes maravilhosos, todos indicações da mesma pessoa, um novo amigo de internet que tem sido um ótimo ouvinte. Fui ao meu primeiro show internacional – Coldplay, simplesmente perfeito ! – e descobri que temperos são mais que alho, sal e orégano.


Se algum conhecido meu com um certo grau de intimidade me questionasse o que tenho feito nesses últimos meses, essa seria uma bela resposta. Vivi, diversifiquei, compartilhei, explorei. Não escalei um Himalaia, mas para quem se emociona com propagandas natalinas, não há se ir muito longe para provar, sentir. Quando perguntei ao meu irmão o que tem ocupado seu tempo, notei que a palavra tempo emprego múltiplos sentidos. O que para mim foram meses, para ele não passou de dez minutos, pois o sentimento que o acompanha é o mesmo há meses.

Meu irmão foi rejeitado da pior maneira que eu penso que alguém possa sê-lo: em cima de um altar, com toda a família presente. Posso estar sendo ingênua em acreditar que essa é a pior forma de rejeição, porém, foi a pior que conheci, e só nos fere de verdade aquilo do qual participamos. Sofrimento alheio comove, mas não machuca.E desse eu participei como madrinha. Aquele abandono, apesar de ter sido absorvido pelos 5 irmãos e nossos pais ali presentes, não diminuiu na divisão. Não...ele multiplicou-se, foi uma ausência que ao invés de deixar um buraco, na verdade soterrou-nos. Meu irmão por pouco não morre nessa avalanche.

O requinte da crueldade foi digno – se é pra dizer que tal ato tenha em si algum elemento de dignidade – de cenas de teatro, contos tristes que iniciam os filmes que falam sobre o pior abandono amoroso existente: aquele sem aviso prévio. Quando uma criança é abandonada, ela não tem conhecimento, pais se despedem com alguma antecedência, não há bilhetes na geladeira dizendo “fui comprar cigarros e não voltaremos mais”mas os filhos notam o afastamento, ainda com eles por perto. Mães, pais, irmãos e filhos somem sem aviso por não suportarem o laço que os unem, renunciam covardemente pois entraram em uma atmosfera que não lhe deram escolha. O abandono surge da vontade de livrar-se de um compromisso que moralmente julgamos eternos, e tudo que é eterno, pede zelo, que muitas vezes não queremos ter. Crianças abandonadas acordam em uma manhã, geralmente de sábado, notando a casa vazia, um silêncio que fala, um nada que as fazem amadurecer em segundos porque nada educa mais do que a sensação de desamparo. Porém, quando se estabelece um acordo entre dois adultos que não possuem laços e portanto não há obrigatoriedade de assim fazê-lo, o abandono é acentuado pois não há justificativa para tal humilhação. Bastava, nem que fosse uma hora antes, quebrar a promessa e então, do lado de fora da igreja, cada um seguir sua vida.

Um noivo abandonado no altar é mais humilhante que uma noiva. Digo isso pois uma noiva sabe desde o primeiro momento quando é abandonada, ela não precisa subir os degraus da igreja para, diante do padre, notar-se sozinha. Ela já o sabe, o noivo não está lá. Basta ela pedir para o motorista dirigir até em casa, no caminho ela mesma já desabotoa o vestido, e longe dos olhares penosos ali lançados, sofrer com o mínimo de dignidade. Um noivo, porém, passará pela dúvida, “noivas se atrasam”, e lá vão-se horas em pé, olhando para a porta, esperando o OK do amigo que vigia a entrada, sofrendo delírios onde ele, em vários momentos, pensa que qualquer barulho antecederá a marcha nupcial, porém, é apenas mais um convidado que cansou de ficar sentado e levantou-se, arrastando o banco, causando aquele som que só não ecoa com mais força pela igreja porque todos estão a comentar, em um cochicho baixinho e que logo se alastra, que a demora da noiva só pode ser por um motivo.

Demorou duas horas e quarenta e sete minutos para que meu irmão começasse a chorar, e a medida que seu choro tornou-se mais alto,a ponto desoluçar, os convidados foram se retirando, onde meus pais, tão desolados quanto eles, encaminharam os convidados para o salão principal da igreja, onde aconteceria a festa. Os pais da noiva fingiram ir até a frente da igreja e foram embora, eles realmente conheciam a filha que tinham.

O que se fala a alguém que foi abandonado na presença das pessoas quem mais amam? O que se faz quando essa pessoa é seu irmão? Não há nada a se falar, nada a se fazer, porém algo precisa ser feito. Ainda no altar, ficamos nós sete, abraçados, por cerca de 20 minutos, onde cada um fez a sua prece. Eu pedi por paz, meus irmãos pediram para que a vadia morresse, meu pais pediram para que fôssemos embora. E assim o fizemos.

Fomos todos para o meu apartamento, era o mais perto e mais amplo, onde meu irmão em estado catatônico deixou-se conduzir como se estivesse em direção a uma valeta. Ele não bebeu nada, não comeu nada. Ele sequer dormiu e não quis tirar a roupa de noivo. Eu e minha mãe cuidamos dele como quem cuida de uma criança morta. Tiramos suas roupas, colocamos embaixo do chuveiro, servimos um café e ele não reagia a nada. Ele sequer falava, não rejeitava nada como geralmente as pessoas feridas de alma o fazem. Ele consentia com cada gesto, deixando-se a mercê do que decidíamos. Para ele, tanto fazia o que nós fizéssemos, e assim foi por uma semana, quando houve sua primeira internação.

Passado tres meses, vejo-o entrar por esta porta e fico feliz que ele esteja vivo, provando que sou mais egoísta do que pensei. Eu o queria vivo, independente do quão sofrivel sua existencia fosse a si mesmo, mas família não são chegadas a democracias, ainda mais aquelas que se amam.

Conversamos pouco porque não havia o que falar. Ficamos por duas horas abraçados no sofá, assistindo filmes e comendo pipoca de chocolate que preparei especialmente para ele. Era tudo o que ele precisava: chocolate e um calor familiar. Quando o filme acabou, com um singelo riso no rosto, ele pediu para ir embora, e vendo que ele estava maravilhosamente melhor do que entrou, o permiti sem hesitação. O acompanhei até a porta, onde ele se enfiou em um táxi e saiu, em direção a casa dos meus pais, onde ele está temporariamente hospedado desde o ocorrido. Sozinha no meu partamento, notei que ele esqueceu uma pequena chave, da qual não soube a que fechadura poderia pertencer. Era uma chave pequena, um tanto amarelada e com certeza antiga. Havia detalhes no cabo que denunciavam isso: os detalhes do desenho, o relevo...uma chave bonita, vou guardar para devolver quando ele voltar.

A parede branca do prédio ao lado é formada por alguns pedaços de espelho. Quando um carro passa e a luz do farol os atinge, provocam um espetáculo na parede da frente, que também é branca. Essa cena caleidoscópico serve de atrativo para que toda noite, eu venha admirar a vista da sacada do meu apartamento. Enquanto observo a cena, lembro do que ouvi de minha amiga semana atrás. Ela não acredita em amor. Segundo ela, nunca amou e sempre foi feliz assim. Não que eu não duvide do fato, mas o ponto que não nos fazem seguir pensamentos iguais é a definição de felicidade, que para ela, é a eterna sensação de festa, de calor na pel. Denise é verão o ano inteiro e amor é um encaixe de neuroses, segundo sua filosofia. Não posso negar que nunca a vi triste, não houve homem que a fizesse perder um sábado de verão trancada no apartamento. Sua capacidade de cura é impressionante e ela mesma assume que nunca amou. Denise não é uma adolescente sem experiência e não precisou ser abandonada no altar para ter repúdio ao amor. “É só olhar em volta. Nós escolhemos amar e ficamos pré-dispostos ao amor e criamos essa necessidade. Amor é criação, não existe nada de soberano nisso porque, todos nós sabemos, que só amamos em troca de algo, nem que seja de uma expectativa.”

Denise ama nos fuzilar com seus comentários. E eu adoro ouvi-los, mesmo que não concorde com uma vírgula. Denise é o tipo de amiga que me fascina, porém, somos afastados por esses conceitos que nos movem.

- Vc acredita em amor porque nunca levou um pé na bunda e nunca teve uma fossa.

- Mas vc tbm nunca amou alguém e n acredita tbm!

- Mas eu sou esperta e vc é romantica, o que pra mim é burrice. Olha teu irmão, teus amigos, me diz, quem vc conhece q é feliz a dois?

- Meus pais!

- Ah, vai saber se é amor o que eles sentem e não comodismo?

- Seja o nome que tiver, quero isso que meus pais tem: alguém pra construir uma vida e morrer velhinha.

- Babaca !

- Sabe Denise, no fundo, eu sei que vc n ve a hora de saber que está errada.

- Ahãm, claro, não vejo a hora mesmo. Vou esperar sentada que nem vc, que acha?

Denise adora discutir comigo porque não me rendo aos seus pontos de vista e seus argumentos super bem estruturados mas em um ponto ela tem razão: apesar de acreditar no amor, nunca amei de verdade, assim como ela. Tive meus namoros, meus chorinhos á toa mas meus finais foram sempre tão pacíficos, sofisticados eu diria. Tive dois longos namoros, um de 5 anos e outro de 4 e na ruptura de ambos, não houve os clichês clássicos que finalizam os relacionamentos que testemunhamos. Foi um acordo, embora sempre partisse do outro lado a decisão, a mim restava acatar e seguir em frente, coisa que eu o fazia porque, eu sempre soube, que não amei esses dois homens. Não era amor, era parecido, ou pelo menos parecido com a visão que tenho da coisa. Porém, nestes ultimos tres meses, comecei a revaliar meus conceitos.

Meu irmão amou – ou ama, não sei – aquela mulher de uma forma que positivamente eu invejava, queria que um homem me desejasse como meu irmao desejava aquela mulher. Era algo primitivo, era um querer inocente, e por ser inocente, impossível de frear. “Pra vida toda.” Ele repetia sempre essas palavras quando falava dela.

Ana 25/03/2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

Retalhos

A autenticidade dos meus sentimentos consiste em saber discernir que amei minhas pluraridades. O mais comum é encenarmos um personagem em prol da conquista, e em pequenas doses acrescentarmos nossa personalidade ao papel até que ela ocupe todo o lugar daquilo que inventamos. Isso explica estranheza com que casais que já tenham suas bodas costumam tratar-se. O comum, infelizmente, é tratar o parceiro sem afeto, tal qual tratamos qualquer um que cruze nosso caminho em direção a este parque. Respeita-se o espaço, aliás, um espaço enorme onde a indiferença se instala.

Porém, as minhas personagens se mantiveram, cada uma carrega sua frustração onde a circunstancia me faz reavê-los no limbo, mergulhando na atmosfera encenada para ressurgir aquele amor que condiz ao que me traz saudade.

Se a escassez sentimental me bate, recordo do Caio e a terça-parte que se resume nossa história. Se a serenidade me cansa, recordo do Fernando e nossas brigas diárias. Se desejo uma arrebatação, me torno a recordar as fotos de Régis. Se prossegue mais do que desejado essa insatisfação, releio meus diários, onde cada face obteve seu registro, documentado para suprir a ausência física daqueles que me educaram para o amor promíscuo.

Se me mantenho solteira, eu sei, é para amar a todos esses homens sem amarras nem compromissos. Porém, até entre os fantasmas há ciúmes, e os torno a amar um de cada vez. Viraram minha bengala, quando na verdade não há a menor necessidade de apoio. Eu bem que poderia me casar com um Márcio qualquer, ou um Rafael igualzinho este que me corteja há semanas. Eu posso, mas não quero. O amor correspondido nunca fez nada de bom para mim, por mais que tenham contribuído para a construção do meu caráter.

Talvez seja isso, meus amores me fizeram o que sou, e falta amor a mim mesma. Dei a estes três homens em especial um amor total, porque não há a menor diferença entre amor próprio e a paixão. Me doei até ficar murcha, e murcha, sinto falta do combustível que me tornava uma heroína, pois amar sem medo é digno de heróis que não tibuteiam em jogar-se a morte. É isso: ver-me covarde e com medo me impede de amar alguém novo, alguém que eu não possa antever os gestos, pois todos os três homens que eu amei eu os tinha na palma da minha mão. Eu sempre soube que eles me acompanhariam por muito tempo, desrrtulando-os de qualquer somatória de tempo que costuma-se dar para justificar as importâncias.

Acompanhei, pela soleira da porta, minha neta contabilizando seus amores pela passagem de tempo que cada um permaneceu fisicamente ao seu lado. É um método falho por não ser sincero. Não há inglória naquilo que não veio a duras penas. A gratuidade com que se ama tende a sumir na medida em que impusemos retorno. Antes, quando o meu coração era inabitado, me lembro da irradiação que Teodoro me provocava. Não o considero meu primeiro amor, mas foi ele quem inaugurou o sentimento em mim, talvez aquecendo minha alma para a acolhida de Francisco, que deu-se nove anos mais tarde.

O fato é que Teodoro jamais apresentou-se a mim sem a fachada do companheirismo próprio de crianças que cursavam o primeiro ginasial. Dediquei-lhe lindos corações naquele que foi meu primeiro diário, onde secretamente repousava no meio as iniciais C e T, atravessados por uma flecha.

Era um amor fotossintético: eu, uma flor, ele o sol. Eu girava o dia inteiro afim de me alimentar do seu calor. Ele mantinha sua distância. E isso bastava.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Primeira parte - Parte um

O barulho ritmíco dos pingos batendo no telhado acompanhados pela sensação de frescor se destoam completamente do I kiss the girl que ecoa pelo apartamento. Ao perceber que minha filha não respeitou o sono sagrado do sábado que tanto prezo, vejo, como que por reflexo, que não me tornei o pai que prometi ser quando senti pela primeira vez chutá-la com violência a barriga de Abigail. Quando o som furioso adolescente por fim termina e o banheiro finalmente é desocupado, decido que farei a barba – esta mesma que me acompanha desde sempre – e o farei rápido para não perder a reação de minha esposa que sairá pontualmente as 10:00. Enquanto brinco com o aparelho de barba, desenhando formas nos pêlos que me acompanharam há mais de 20 anos – não são os mesmos pêlos, óbvio, mas a sombra que produzem no meu rosto é ancestral – fico pensando se de fato, tenho minhas obrigações com Abigail por encerradas.


Sou marido, pai, filho, amigo, amante. Será isso o suprassumo do que ela espera de mim? Ela não espera de mim um desafio, não anseia pela hora de eu começar a chegar tarde em casa, de ela passar-se por situações de ambiguidade, dúvidas? Sou pra ela todo esse porto seguro indigno de qualquer suspeita?

- Droga! O pequeno corte jorra um sague vermelho um tanto branqueado, já reconheci meu sangue mais intenso, vivo, de um vermelho que me identificava mais que meu próprio rosto. Ao limpar com papel higiênico, tentei lembrar da última vez que o vi. Foi no aniversário de Abigail, de uma data jurássica, onde eu cortei meu pé próximo ao calcanhar em um caco de vidro que sobrou do pote de pepinos que ela arremessou em minha direção na noite anterior. Eu não lembro o motivo, mas sei que o mereci, e melhor, que deveria ter me acertado em cheio, um pote daquela estrutura causaria alguma sequela, tenho certeza. Eu queria vê-la arrependida já que nunca a vi, eu desejava vê-la sem reação. Eu a desejava somente ao avesso: que sua vontade de me ter cessasse. Eu desejava, naquele instante, um repúdio que ela não demonstrava e assim como fazem os casais que se amam, ela brigava, me exigia algo que eu não dava sequer a intenção de dar. Eu não queria sexo naquela noite, eu não queria dormir com ela e não trazia nenhuma mágoa recente para justificar, apenas não queria seu corpo próximo ao meu.

Abigail, vaidosa e com todo o direito de ser, não suportava meus períodos de inverno. Aquela mulher era verão o tempo inteiro, calor na pele, lingua sem freio, destemida. Mulher de áries, cabeça-dura, cabeça linda, com seus fios camomila descendo pelos ombros, finos como uma teia.

Como uma teia...

- Amor, tô atrasada. Sua voz vinha da cozinha, devo ter me passado no banho mesmo já que ela acordou e preparou todo o café, enquanto ainda estou aqui, analisando a forma que o sangue toma ao coagular-se. Rapidamente finalizei a barba revelando um rosto branco, meus olhos se destacaram e senti que de certa forma aparentei estar bem mais moço. Acompanhando o impulso de ver meu rosto mais jovem, tomei um banho rápido e frio, a fim de recuperar o viço da pele. O band-aid no lugar do corte me deu um ar aventureiro. Ri de mim mesmo: cortar o rosto foi minha maior aventura em meses.

Abri a porta do banheiro onde Abigail, inquieta como sempre e não pelo atraso, entrou rapidamente e olhando a sujeira que fiz na pia, voltou e me puxou pelos ombros, já que eu estava de costas. Meu olhar cabisbaixo e envergonhado por não antever sua reação alimentou seu olhar de desejo: ela passou as mãos pela minha pele do rosto desnudada e me beijou profundamente, primeiro o lábio inferior, depois o superior. Por fim, ambos. Seu desejo por mim foi transmitido pela boca, onde reagi em perfeita sincronia e nossas peles se colaram. Eu, nu, e ela de camisola, entramos no box do banheiro e ela, usando uma das mãos, ligou o chuveiro, onde ela não imaginava que jorraria uma água fria. Ri timidamente do seu espanto e ela riu de si mesma.

- Ficou lindo...Disse ela, ao mesmo tempo em que retirava a camisola, revelando-se mais linda do que imaginava. Há meses eu não enxergava Abigail além dos meus olhos acostumados e creio que o mesmo se aplicava a mim. Entre um corte e um jato de água fria surgiu felicidade. Ali vi que amar não é um sentimento de certezas, se ama nos intervalos e minhas dúvidas sobre Abigail escorreram pelo ralo da pia.

Nós não fizemos amor mas eu o queria e ela também, deixamos esse desejo em fogo-brando já que realmente ela estava atrasada. Esperei ela vestir-se e ainda nu, sentado na ponta da cama, com as mãos cobrindo meu pênis, fiquei admirando-a enquanto se vestia. Calcinha, sutiã...por fim o vestido. Como eu queria tirar-lhe a roupa, jogá-la naquela cama umedecida com a água que não sequei do meu corpo e fazê-la rir da nossa pequena traquinagem...

Enquanto ela colocava os brincos, olhando-se no espelho, notei que eu estava com um riso sincero no rosto. Quando ela se virou e me viu, sentado, como um menino tímido contemplando uma mulher, ela abandonou o brinco que tentava pôr e veio em minha direção. Sentou no meu colo e não importou-se com minha pele úmida, e me beijou, segurando meu rosto liso ao mesmo tempo que meus braços a entrelaçavam.

- Preciso. Ir. Agora! E entre uma palavra e outra, Abigail me dava um beijo, igual quando fazíamos na época em que namorávamos no carro, às escondidas. As despedidas sempre foram minha parte preferida, pra tudo. Os arremates me interessavam mais que o desenrolar da trama em si, os pontos de chegada, os pontos de repousos.

Mas estes três beijos não eram finais: era a deixa para o que ocorreria mais tarde, sem pressa. Não foi somente meu rosto que rejuvenesceu, meu casamento voltou 20 anos atrás e a ausencia da barba foi meu álibi para forçá-la a ver-me como antes, mesmo que não tenha sido minha intenção primária. E os beijos intercalados que ela me deu agora tinham a mesma serventia. Serviam para me dizer que ainda há uma Abigail que amo.

Com a mente totalmente varrida de qualquer lembrança – atribuo isso ao estado pleno de felicidade - , me vesti e tomei meu café. Deixei dinheiro para a empregada fazer as compras, acrescentei alguns itens na lista e saí munido apenas de carteira e celular. Era tudo que precisava para hoje.

Quando estava com os dois pés fora de minha calçada, passo a mão no rosto e me recordo: estou sem barba. Senti uma fisgada no estômago e quis, naquele momento, que todo mundo que conheço me visse agora. Já imaginaria os resultados: meio mundo adoraria, outra metade detestaria. Assim como tudo, alguns abraçam o novo e outros enterram os pés no velho. Até hoje pela manhã, eu me enquadrava no segundo grupo. A rotina representava a plenitude, sempre me pareceu o melhor terreno para fazer planos. O descontrole era o meu inferno pessoal.

Caminhei e dei uma volta na quadra afim de reconhecimento. Na verdade, eu quis apenas caminhar, pegar sol na cara, talvez comprar o jornal, não sei ao certo. Saí parcialmente sem rumo, aguardando algo novo que sei que não aconteceria. Eu não sabia o que fazer com essa felicidade que caiu no meu colo pela manhã. Me senti bobo, coisa de guri com a primeira namorada.

Lembrei de Abigail nua no banheiro. Maliciei com a cena e logo senti o incômodo da ereção. Fui caminhando em direção ao muro de uma grande loja que não estava aberta e sem cerimonia ajeitei meu pênis na cueca. Há tantas desvantagens femininas – mestruação, tpm, gravidez, etc – mas são males que as afligem com horários, elas tem a oportunidade de prevenirem. Eis aqui a desvantagem masculina: a ereção. Primeiramente porque quando ela acontece, é notável – alguns mais, outros menos – é espontânea e nem sempre acontece por excitação. Lembro que Abigail adorava me constranger em público quanto a isso: beijava-me os lóbulos da orelha, pescoço, passava a mão na minha virilha somente para vê-lo crescer. Logo após alcançar o objetivo, me deixava literalmente na mão. Ela ria do meu constrangimento mas a verdade é que isso era uma injeção em sua autoestima. E eu me virava como podia, colocando moletons na cintura, andar meio incurvado – o que mais tornava óbvio do que disfarçava, mas eu não percebia – e quando a situação permitia, me masturbava.

- Porque voce gosta de fazer isso comigo? Perguntava eu, entre a ingenuidade e a safadeza, no auge dos 17 anos.

- Porque gosto de te deixar querendo mais...Respondia, com o riso mais sacana que já vi na vida. Quando ela ria daquela forma, eu sabia: game over, Francisco. O jogo acabou, pelo menos para ela. E ainda complementava:

- Adoro essa carinha de cachorro pidão....e me beijava, e muitas vezes recomeçava o processo, o que eu adorava e odiava ao mesmo tempo, brincadeira que me enlouquecia e me mostrava a realidade: é ela quem comanda nossa relação. Eu obedeço e cedo. Ela inciava e finalizava. E eu que me contentasse. E eu sempre me contento...

O sol que prometia um calor massante foi logo se apagando, como uma lanterna com pilha fraca. Olho para o céu: nuvens carregadas e sinto a premeditação do vento forte que virá.

Temporal. Preciso ir para casa. Me apresso e passo por uma banca de revista que não vi quando realizei o percurso de ida. Há 20 metros do edifício onde, apartir de ontem, comecei a morar, compro o jornal e vejo a data: 27 de outubro. Primeiro dia de escorpião, começo do meu inferno astral.

Assim como tarô, búzios e simpatias, nunca acreditei em horóscopo. Mas conheci alguém que acreditava e absorvi desta mulher alguns fragmentos dessa ciencia. Ela é de escorpiao.

- Sou seu inferno astral, que pena né? Foi uma das primeiras frases que ouvi-la dizer.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Espero

Tentei ser cordial no convite mas minhas palavras não camuflaram a ansiedade e insegurança que aquele encontro me provocava. Pensei em ser ríspida mas logo vi que não havia a necessidade de farpas, muito pelo contrário, era um encontro de rosas e o único espinho que por ventura machucaria não me causaria dor. Restava saber o quanto minha convidada estaria disposta a sangrar, mesmo que este fosse o último recurso para aquilo que ela e Maurice carregavam. Meu medo era ir longe demais no que de fato não me cabe, porém, a proximidade do fim nos enche de uma coragem avassaladora, nos retira o medo de consequências, nos retorna a imaturidade perdida quando descobrimos que a todo ato terá não apenas uma, mas várias consequencias.
Não, não era a imaturidade que me motivava a me encontrar com o primeiro amor de Maurice. Era como se caso eu os salvassem, estaria salvando a mim mesma. Esta foi a forma que encontrei de ver nos outros o amor que não me foi concedido. Foi, entre outros motivos, a minha forma póstuma de revelar o quanto me sinto agraciada pelo amor ofertado deste homem que não enxergo defeitos, que não vejo vestígios que denunciem melhorias, deste homem que me aceitou pela metade e mal sabe que me teve por inteira. Sinto culpa de fazê-lo sofrer novamente, de fazê-lo crer que ele não é homem que viverá de amor, logo ele, tão capacitado para isto, amar.
É inevitável que mediante o que passo eu não pense em amenizar os danos que minha saída fará na vida dos que amo. Não posso olhar os olhos de Maurice que o choro vem manso, subterrâneo e o prolongamento do ato de olhá-lo logo denunciaria que algo está errado.
Quanto mais eu descubro que o amo, mais sofro por anteceder seu sofrimento. Eu choro por antever um final que ele não merece e não pela minha morte. Eu choro por não ter tempo o suficiente de agradecer, de quebrar a promessa de ficar velha e besta de tanto amar este homem que nada pede, apenas doa. Logo ele, que tem todos os motivos para não amar, o faz por alguém que de fato não o merece. Ninguém merece o amor de Maurice, exceto esta mulher, que espero com toda minha fé, que venha hoje a esta casa.

Cecília
21/12/1989

domingo, 13 de setembro de 2009

Caixa Postal

Sem viadagem e sem rodeio: eu te amo, cara. E não me olha torto porque essa parada ainda é nova pra mim que tu tá sabendo. Sei que voce tá pensando "e a tua mulher e os teus filhos? que que tua família vai pensar?" e eu já te adianto: foda-se. Foda-se o que o vizinho vai falar, ele que vá a merda junto com todos que vierem soltar piadinhas. Mas a moral é éssa: te amo e não quero que você vá embora.
Pô, cara. Eu não ia ratear de entrar nessa sabendo que você quer cair fora, mas eu sei que você quer ficar e sei também que essa situação te incomoda e é ela que está te fazendo ir. Me dá dois dias, só o tempo de eu ir pra casa e falar pra minha mulher, explicar pra ela que não eras mais manter esse casamento e então tu vem morar comigo.
De boa, sem sacanagem. Sei que ela vai pirar, nem passa pela cabeça dela - duas semanas atrás nem passava pela minha também - mas não tô mais afim, perdeu a graça ficar inventando desculpinha pra não ir pra casa. Ela já está grilada achando que to comendo alguma estagiária ou coisa parecida, sei lá, cabeça de mulher só pensa o que não deve. O baque vai ser dizer que to saindo pra morar com outro cara. Pra morar contigo, meo !
As crianças ainda estão pequenas, não tem porque dar muito detalhe. Vou continuar sendo o paizão delas, nada muda nessa parte e desculpa tá falando essas merda tu não sabe como tá minha cabeça então releva os detalhes, cancela a passagem e encara essa comigo que sei que não vamos nos arrepender. Tô naquele hotel que a gente se vê sempre, me liga assim que escutar essa mensagem.

Régis

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Catherine

Passo meu legado a este jardim pois é nele que mais me reconheço. Catherine, apesar de só ter oito anos, já demonstrou ser referência a Maurice e não a mim. Ela é firme, porém doce, caracterizada por uma infinidade de contrastes e imprevistos que se destoam completamente da minha forma previsível. Ela se aproxima cada vez mais de Maurice nos traços e no comportamento, o que atribuo ao acaso e não a falta de receptividade. O que nos une é o amor mútuo, este que supera essa nossa carência de semelhanças.
Eu a amo e as provas desse amor são complexas demais para que ela as absorva, e a maneira que ela retribui está a anos-luz do meu entendimento. Catherine é o mistério que entrego ao mundo para ser revelado e estas cartas deixo a ela para que um dia eu me revele.

Cecília